Verbo de ligação


“É preciso brincar para afirmar a vida”
08/06/2012, 11:28
Filed under: Entrevista

Lydia Hortélio, pesquisadora da cultura da infância e brincante

Lydia Maria Hortélio Cordeiro de Almeida, mais conhecida como Lydia Hortélio, nasceu em Salvador (BA) dia 13 de outubro de 1932. Passou sua infância em Serrinha (BA), é professora de música, com especializações na Europa, e dedica-se à pesquisa e difusão da Cultura da Criança e de Música Brasileira. Tem participado de vários projetos de educação, buscando favorecer a inteireza e o movimento da criança. Lançou dois CDs considerados referência no tema: “Abra a Roda – Tin-do-lê-lê” e “Ô Bela Alice”.

Deve-se brincar para aprender?

Deve-se brincar para ser feliz. Se você quiser brincar para aprender já não é mais brinquedo. Porque o brinquedo tem um fim nele mesmo. Bola pra quê? Pra brincar de bola. Você brinca de peteca pra quê? Pra brincar de peteca, para passar pela experiência múltipla e extraordinária que é brincar de peteca. E por que brincar de roda? Porque é uma maravilha: mão na mão, esquecer quem é você, embarcar no sonho daquela hora… Brincar é isso aí. Mas há quem queira transformar o brinquedo num “brinquedo pedagógico”… Existem tentativas nesse sentido, mas não dá, porque há uma incongruência.

Mas isso não significa que as crianças não estejam aprendendo ao brincar.

Aí é que está. Estão aprendendo e muito mais do que a gente consegue ver. O brinquedo é múltiplo. Ele mexe na alma. Na hora em que a gente compreende isso, não tem mais medo de dizer que está brincando. Criou-se até uma antipatia ao brinquedo: “Menino, você já tá grande demais pra brincar disso!”. Como se, a partir de certa idade, só se pudesse pensar… Só se aprende liberdade brincando. Brincar é o maior exercício de liberdade que a gente pode ter.

As escolas parecem querer ocupar o tempo das crianças…

Todo o sistema armado para recebê-las é antiquado. Mesmo as escolas mais avançadas estão defasadas em relação às descobertas mais recentes da ciência. Ninguém hoje aguenta ficar quatro horas sentado ouvindo um assunto que não é do seu interesse. Mas tem gente preocupada com isso. Em São Paulo, por exemplo, há muita gente despertada para este tema. Que brincar é preciso. Que levar a criança a brincar é uma tarefa inadiável. As escolas deviam tomar consciência disso, mas os recreios foram encurtados porque cada vez mais a preocupação é com o conteúdo. É a mente, a herança cartesiana. E o Brasil que dança está sendo esquecido. Acho que viemos ao mundo para dançar, para brincar. Dizendo isso não estou defendendo que não viemos para aprender toda a herança cultural do mundo. Mas isso precisa ser revisto. Antes de mais nada, é preciso ser feliz. É preciso brincar para afirmar a vida.

Como você vê a hegemonia desses brinquedos importados, em sua maioria, da China?

Acontece muito de a mãe – depois de trabalhar o dia inteiro, e com peso na consciência por não estar assistindo seu filho como gostaria – passar no supermercado e comprar um brinquedo desses. O menino fica alegre naquela hora. Depois o brinquedo não tem muito significado, e a criança deixa de brincar com ele. Para piorar, um dia a mãe ou o pai acha o brinquedo jogado atrás da porta e diz: “Não lhe dou mais nada!”. Há pouca consciência do que realmente tem valor lúdico.

Qual a importância de preservar a infância?

A infância é algo precioso. Eu acho que, se a humanidade tem futuro, ela vai retomar por aí, pela infância. E isso não é impossível, nem difícil, porque a infância está guardada dentro de cada um. Eu acho que a grande revolução está aí. Fico muito feliz de ver que o Brasil tem tudo pra isso, tem muita cultura popular ainda. A cultura popular é uma segunda infância. Um alemão extraordinário, Friedrich Schiller, diz que o homem só é inteiro quando brinca, e é somente quando brinca que ele existe na completa acepção da palavra homem. O brincar é algo espiritual. E não estou falando de religião, não. Não é nada disso. É algo ainda mais profundo, que tem a ver com a alma do homem.

De onde vem sua aproximação com a cultura da infância?

Acho que começou mesmo quando eu era criança, no sertão da Bahia. Eu brinquei muito. Nós tínhamos um quintal com 25 mangueiras e ali brincávamos de tudo. Naquela época, na escola primária, também se brincava muito. Não sei muito bem como vim a estudar música… O fato é que fui à Europa para estudar piano na Alemanha. Lembro que os presentes que levei eram todos brinquedinhos que comprava dos fazedores de brinquedos populares. Eu tinha aquilo comigo.

No campo se brinca mais do que na cidade?

Nas comunidades rurais em que pesquiso, os homens velhos brincam como se fossem crianças. As mulheres de 70, 80 anos pulam na roda parecendo meninas de sete. As mulheres mais jovens também brincam. Vão carregando os filhos nos braços e cantando na roda. Acho que o fato de a gente ter se afastado da natureza e deixado de viver em comunidade estraçalhou o homem. E, ao mesmo tempo, ele esqueceu, perdeu sua infância. Enquanto isso, o pessoal que está lá no mato, que tem suas formas de trabalho coletivas, continua em contato com isso… Às vezes, ao vê-los em ação, você não sabe se estão trabalhando ou brincando…

Você ainda brinca, ou só profissionalmente?

Brinco… Brinco, sim. Porque isso traz alegria, traz saúde. Não que eu esteja brincando por aí de Atirei o Pau no Gato… Você pode imaginar que eu já estou há muito tempo em cima deste mundo. Tenho 75 anos! Então, a carga de mundo é imensa. É uma conquista ainda conseguir brincar, porque foi muita escola, muita universidade… A espontaneidade diminui, e é essa a força que a criança tem. Mas eu vou lhe dizer: a vida está aí pra gente reconquistar, e eu estou aí pra isso.

*Entrevista publicada em outubro de 2008

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