Verbo de ligação


enquanto é maio
18/05/2012, 18:15
Filed under: Prosa

                Eu era adolescente quando li, pela primeira vez, esta crônica de Elsie Lessa em um livro de escola – muitos devem ter conhecido a “Novíssima Gramática da Língua Portuguesa”, de Domingos Paschoal Cegalla. Sempre gostei deste texto, que deixava um sentimento bom em mim e, além disso, maio é o mês do meu aniversário, o que me fazia sentir homenageada. Esses dias o reli e, gratamente, ainda me surpreendi com sua beleza. Aqui vai.

ENQUANTO  É  MAIO

Durante quatro ou cinco meses por ano o Rio é uma cidade desesperantemente infernal, com o seu calor. E eis que de repente os termômetros se comportam e o céu azula e o ar se limpa e purifica, o mar lava suas ondas, as árvores pintam de luz o verde das suas folhas e tudo se adoça, dentro e fora dos seres humanos.

E me inquieto e quisera ser ubíqua e onipresente, pois não posso sair daqui, nem um minuto, e perder o Rio, nos seus dias de maio. E Petrópolis, ali, junto, está um delírio de beleza. Teresópolis, Friburgo, Penedo, Itatiaia, São Paulo, Caraguatatuba, Parati e Vila Bela hão de estar igualmente esplendorosas. E que diremos de Salvador e Recife, quem sabe se até Brasília? Pois é maio em todas elas. O que sobremaneira nos inquieta, pois já não será possível festejar o acontecimento em todas essas latitudes.

E vos escrevo, vigiando a paisagem pelas janelas abertas, pois não sei se ficará muito tempo assim à minha espera. E tenho remorsos de ir ao cinema e teatro, pois é um privilégio assistir a tais espetáculos em maio, mas uma tristeza perder um minuto que seja de maio, do lado de fora deles.

E é mister reunir os amigos e amar mais do que nunca os bem-amados e agradecer – ah, não vos esqueçais – aos vossos deuses, não importa quais sejam, o breve, o precário, o maravilhoso privilégio de estardes vivos e sãos e alegres, em maio.

Elsie Lessa in A Dama da Noite

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3 Comentários so far
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Presente lindo! Que você, sem sombra de dúvida, merece!

Comentário por Lize Gevaerd

A Literatura, a Poesia, não oferecem apenas o benefício de fazer com que nós, leitores, desvendemos melhor a nós mesmos e o mundo que nos cerca… Há outro presente ofertado: não suporto frio; não gosto sequer de temperaturas amenas! Sou de Curitiba e aprendi a detestar os pés gelados e a saída do banho. Mas com esse texto, Onides, me transportei para a sensação do outro. Kundera diz que “compaixão” está longe de significar “piedade”. É “co-paixão”. Sentir o que o outro sente. A boa literatura me enche de compaixão!

Comentário por Sergio Mariani

Meu mês também! 🙂

Comentário por Gal




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