Verbo de ligação


outra
10/05/2012, 16:40
Filed under: Prosa

Há muito de não-mim naquilo que costumo acreditar que seja eu. Não impunemente.

Que a mentira cobra seu preço.

Mas, e se eu me der uma chance de observar o mundo com menos apego a crenças, às que herdei, às que formei e às que adotei? Uma chance de experimentar outras possibilidades, com outros princípios, de chegar a outras conclusões?

E de me conduzir de modo renovado, guiada pela presença de espírito, não mais pelo modo controlador de quem já sabe tudo e faz sempre igual?

E se eu não mais temer dizer às pessoas que gostam de mim – apenas no caso de me perguntarem – que experimento sim o que lhes desagrada? Se eu fizer questão de proteger e produzir meu próprio discernimento, ainda que me custe rejeições? Isto é – e se eu não me vender? Não me trair?

E se eu me valer exatamente do amor para enxergar as pessoas, por próximas e caras que sejam, não como pessoas, mas como forças? Então poderei refletir sobre que influências são essas que interagem na minha vida e sobre sua contribuição à história que protagonizo, que é só um pedaço da história única de nós todos.

O que será se eu submeter todos os meus sonhos, mesmo os mais doces, à análise da honestidade e descobrir que alguns, ou muitos, são ilusões? E se eu cogitar abrir mão dessas ilusões, que me ajudam a manter fechadas as portas dos esconderijos escuros dentro de mim, onde temo entrar?

E se, ao alumiar o meu terror e limpar a minha casa, eu descubra que ela está vazia? E se eu confiar que os sonhos verdadeiros são os ocupantes legítimos dessa morada, são a própria  vida real?

E se, por isso, eu entender de uma vez por todas que morte é uma vida vivida sem paixão e não uma existência que parece chegar ao fim?

E se, então, eu me convencer de que, se o cotidiano está pesado e entediante, algo está fora dos trilhos? De que, nesse caso, estarei necessariamente negligenciando a minha felicidade por medo de assumir a responsabilidade de aprender a ser, com o risco da dor?

E se aí eu me comprometer a fazer, das minhas horas todas, arte, ainda que singela? E sempre bela, ainda que dolorosa?

Quando penso nessas coisas, é tão bom! Minha cabeça fica leve e meu coração espalha um sorriso pelo corpo.

Anúncios

1 Comentário so far
Deixe um comentário

E se cada um de nós tiver (não a inspiração, porque essa é muito tua) mas a coragem de olhar pra dentro de nós mesmos e questionar pelo menos a metade disso tudo? Lindo, Onides!

Comentário por Lize Gevaerd




Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s



%d blogueiros gostam disto: