Verbo de ligação


amigo, amiga
14/03/2012, 18:09
Filed under: Prosa

Após anos sem contato, ela retornou à cidade e marcaram um encontro.

Já ao telefone, sentiram que estava a salvo seu maior tesouro: a intimidade. A maturidade os fizera ainda mais cúmplices, afetuosos e divertidos.

Então no Museu Niemeyer, às onze da manhã.  Estava chovendo. Ela chegou mais cedo e ficou sorvendo a imagem da garoa ininterrupta sobre Curitiba. Aquilo ela conhecia bem. Tanto tempo administrou os altos e baixos de seu próprio humor, tão afetado pela meteorologia.

E essa pessoa que estava por chegar era muito especial. Foram apresentados por amigos comuns, havia duas décadas. De modo que, jovens, saíram demais, pelos bares, cinemas, teatros, eventos, viagens. Conversaram sobre tudo. Identificavam-se. Diziam-se irmãos. Mas um dia até se beijaram na boca. Muito. Deve ter sido um beijo ininterrupto de uns 30 minutos. É que, de repente, deu uma vontade irresistível, nos dois. Foi uma delícia. Sexo, nunca. O que poderia ter sido uma experiência ótima. Ou um desastre para a amizade.

É claro que os eventuais parceiros de ambos se rasgavam de ciúme. Mas eles não podiam evitar: amavam-se. E reverenciavam seu vínculo.

Riam muito. Um dos motivos era o carro dele, que tinha uma peculiaridade: era sujo, muito sujo. Imundo. Principalmente por dentro. Ali, depositavam-se embalagens de todo tipo de comida que se possa imaginar. Exceto casca de ovo – talvez. O banco de trás era recheado de pipocas velhas e amendoins, não raro uma bala derretida, pois ele levava a sobrinha para passear. Corajosa a sua irmã, quando permitia que a filha entrasse naquele buraco negro.

Um dia ele fez uma coisa muito engraçada. Passou um trote na amiga. Ligou e, empostando a voz, foi fingindo que era aquela figura por quem sabia que ela suspirava. E o pior: ela acreditou. Ele a convidou para sair: ela aceitou. Aí ele não aguentou mais e explodiu numa gargalhada, tão incrédulo e satisfeito estava com o sucesso do seu golpe. Ela o xingou de palavrões muito feios, mandou-lhe para lugares nada honrosos e… Caiu no riso com ele. Afinal, aquilo não era gente.

E agora ela o avistava chegando ao museu. Há quanto não se viam? Ai, que saudades! Mesmo de longe, o quase quarentão mantinha um ar jovial. Lindo sempre, o danado. E, à medida que ele foi se aproximando, foi ficando assustada, porque então se revelou um segredo que ela fizera a proeza de guardar de si mesma aqueles anos todos. Viu emergir de seu interior uma adolescente de corpo e alma saltitantes, que lhe contou o óbvio: aí vem o meu namorado!

Onides Bonaccorsi Queiroz

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1 Comentário so far
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Lindo. Sensível. Engraçado. Doloroso. Apaixonado. Amoroso. O exato espelho de um relacionamento ímpar.
Só resta agora um último adjetivo: eterno.

Comentário por Sergio Mariani




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