Verbo de ligação


essa moça
30/01/2012, 14:19
Filed under: Prosa

Conhecemo-nos há muito tempo. Adorávamos brincar juntas quando pequenas. Podíamos ouvir o que diziam as roseiras da Nonna. E responder. Aprendemos a subir na goiabeira da Vovó. Ficamos encantadas em descobrir a lua de dia. Ótimas companheiras que éramos.

Depois, fomos nos estranhando. Na adolescência, comecei a considerá-la inconveniente. Feia demais – meu Deus, quanta espinha! –, gorda demais, desajeitada demais. Não era alguém que merecesse o meu apreço. Não era alguém com quem eu quisesse ser confundida. E ela foi ficando cada vez mais sem jeito, retraída. Corri. Distanciamo-nos muito, e procurei esquecê-la, elegendo novas amigas. Quando eventualmente esbarrava nela, desviava o olhar.

Ficamos anos sem nos encontrar. Mas, às vezes, sonhava com ela. E não entendia por quê. Foi o tempo que, tão valioso, me deu a chance de reconsiderar. Seguindo conselho desse senhor, resolvi buscá-la de novo. Senti que tínhamos algo a resgatar. Ela, tocada, me estendeu a mão. E, lenta, atentamente, vamos reatando nossos laços.

Ao enxergá-la com novos olhos, vejo que essa moça me toca o coração, assim contraditória como é. É tão complicada, com seus medos e manias. E, ao mesmo tempo, é uma das pessoas mais corajosas que conheço. Sempre ocupada, e nunca faz o que precisa. Sempre com pressa, e nunca acaba. Percebe que há algo enlouquecido dentro de si, mas também sabe que a cura existe. E fica radiante quando percebe a presença dessa força restauradora. Como naqueles momentos em que faz o que ama.

Desde sempre, tem uma melancolia, uma saudade não-sei-de-quê. Ama as histórias, sobretudo das mulheres. Ama as poetas e as escritoras. E se encontra no olhar sonhador de Cecília Meireles. No espírito investigativo de Clarice Lispector. Na mansidão de sua conterrânea Helena Kolody. Na devoção de Adélia Prado.

Às vezes me traz surpresas maravilhosas. É criativa e original. Divertidíssima quando ri de si. Como outro dia, quando se empolgou toda com os olhos lindos daquele homem superinteressante que lhe deu a maior bola. Para depois descobrir que ele era padre!

Sozinha, faz piada dos outros também. Afinal, somos todos tão engraçados! Com nossas ilusões, dramalhões, apegos e infantilidades.

Eu a conheço o suficiente para saber que é doce seu coração. E, na consciência, supera a ingenuidade, enquanto se aproxima da inocência. Cada vez mais, tem vontade de rir, brincar, cantar e dançar. Sabe que desse jeito espanta as sombras. Já convivi tanto com ela, e me pergunto quem é. Será que um dia acabo de descobrir? Acho que não. A vida a reinventa. E não é que está ganhando minha simpatia de novo? Quero-a bem perto.

Deparei com essa moça, hoje, ao espelho, e ela sorriu pra mim.

Onides Bonaccorsi Queiroz

(Foto: Onides Queiroz)

(Foto: Onides Queiroz)

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3 Comentários so far
Deixe um comentário

Estou chorando de ler algo tão lindo e verdadeiro. Vou encontrar com a minha desajeitada já já…
Heloísa Capelas
com amor!!!!!

Comentário por Heloísa Capelas

Perfeito! Onides, que texto lindo!!!

Comentário por nAtAn

Essa Moça é linda! lindo texto.

Comentário por Ronaldo Amaral




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