Verbo de ligação


sempre nova
09/01/2012, 14:50
Filed under: Prosa

Ainda não descobri o meu pecado. Mas carrego a culpa. Um manto de horror comigo própria. Que se estende por toda a minha vida e me sussurra continuamente: “não”.

Emprego grande parte do meu tempo em justificar suas proibições. Sintoma de que rompi com a ordem harmônica da existência. De que, de algum modo, percebi tal ruptura e ela me causou susto e pesar. E esse fato me entristeceu tão profundamente e me trouxe tanta decepção comigo mesma, pois me julgava incapaz de tal cometimento, que não posso olhar para ele. Como se fosse um fato último e, assim, me categorizasse definitivamente: “mau”.

Por isso, ainda que eu ignore sentir, sinto-me indigna. Por isso não me lanço.  Ademais, se eu me aventurar, posso fracassar. Não me exponho: posso ser criticada e rejeitada. O que faria doer ainda mais minha ferida de indignidade, ao desencadear em mim também vergonha.

Culpa e vergonha formam uma instância monstruosa: a humilhação.

Humilhada, mantenho as portas cerradas. Nem luz, nem ar, nem música entram na minha cela. Quem sou eu para desfrutá-los? Não os mereço. Pelo mal que causei e causo – pois já que sou mau, pratico maldades –, não estou em conformidade com a natureza do bem, que distribui as dádivas.

Mas, cercado de tanta privação, algo em mim se revolta. A vida, que quer viver.

Então, estou cindida. Pela dúvida. Mereço ou não?

Enquanto não me arrisco a merecer, que é o preço de viver bem, aproprio-me de uma mentira vestida de verdade: o orgulho. Pronto. Agora não sou mais inferior, digo para mim e tento demonstrar para os outros.

Minha condição de isolamento não se deve mais ao autorressentimento, mas é a prova da minha distinção: não me misturo aos demais porque sou muito melhor.

Por um lado, ganho certa segurança. Um trunfo discutível, obviamente, mas, ainda assim, mais confortável que a minha posição anterior, de subordinação.

O investimento nessa imagem me custa energia. Para imaginar, planejar e pôr em prática minhas estratégias. Com as quais convivo sem sequer identificá-las como estranhas, artificiais, tão familiarizada estou com seus equívocos de lógica afetiva. Escondida na retranca, desencadeio vícios, fico compulsiva. Enquanto afirmo que “sou assim”.

Quanto tempo? Até que venha a exaustão. Tão pesada esta máscara.

Agora chega. Não suporto mais a solidão. Não acredito que este deserto seja eu. Esta ausência de mim, de vida real em mim. Eu me quero. Eu me procuro desesperadamente.

Quanto mais percepção tenho do apuro em que estou metida, mais ganho determinação. Quanto mais decidida, mais urgência na busca. E encontro a saída. Volto pela estrada que me trouxe até aqui. Enfim, deparo com o momento em que, sem querer, feri. Oh, dor! Que remorso.

Mas vejo que, apesar do dano que minha ação causou, eu não queria tê-lo causado. Eu não sabia que poderia causá-lo. Então vejo que sou inocente. E suporto olhar de frente para o que fiz.

Fui capaz de fazer, sim, e sou responsável pelo feito. Mas não tive culpa. E, a propósito, o que é culpa, se mesmo o dolo é fruto da inconsciência? — Culpa é apenas aquele trambolho imobilizante que arrastamos pela vida como se fosse nossa identidade, o que é uma desculpa para não mudar. Para não ousar. Para não viver.

Então sou livre? Este entendimento requalifica a vida. Meu peito se desafoga em alívio e lágrimas e eu me compadeço do meu longo sofrimento. Eu me compreendo e me perdoo. E me autorizo a me amar.

Eu me aproximo de mim, com delicadeza e carinho. Percebo o quanto me fez falta este amor que tranquei no coração. É a minha essência. Ah, como é doce e bem-vinda! Não posso mais abrir mão dela. Só dessa maneira viver tem significado.

Para viver com alegria, não pode haver concessões. Por esta verdade, dou minha vida.

Mas ainda preciso avaliar o passado: errei por um engano da existência? Não. Errar é esperado: é parte da minha humanidade em maturação. Contribui para o meu discernimento. Além do mais, isto me torna mais compassiva com as falhas alheias. Sei de que são feitas. Vejo se esvaziar minha necessidade de espreitar, julgar, condenar e difamar. Assim como vão deixando de me ferir as maledicências sobre mim, pois são filhas da ilusão e do medo. Da fraqueza. Já eu não me abandono mais. Porque conheço minha verdade.

Agora sei o que eu não sabia. No coração, floresce a senha: “sim”. Pois todo o tempo, para todos, sempre uma poderosa oportunidade: o novo.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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1 Comentário so far
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lindo o texto!Tenho admiração pelo seu trabalho e por sua pessoa, seus textos são profundos e refletem a busca do aprimoramento do ser.

Comentário por Raquel Nogueira




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