Verbo de ligação


a pérola que brilha de noite
03/11/2011, 22:17
Filed under: História

Era uma vez, bem longe daqui, o Rei do Mar Oriental, que era muito sábio. Ele tinha uma filha, linda e inteligente.

Mas a princesa lhe causava certa preocupação, porque não se interessava em se casar com nenhum dos seus inúmeros pretendentes. Nem com os nobres, nem com os moços ricos dos reino, nem com nenhum dos ministros do rei. Nenhum deles a interessava.

Mas, um dia, ouviu falar de um rapaz humilde e honesto, um órfão, que morava do outro lado da praia e que, diziam, tinha uma grande virtude: um coração de ouro. Ah, isso sim a interessava. Então, ela deu um jeito de se aproximar dele e de conferir se aquela informação era verdadeira.

Na mesma noite, o rapaz, que se chamava Ahorel, sonhou com uma voz muito doce e melodiosa, que o chamava: “Venha, venha até a praia conhecer a sua noiva!” Ele despertou sobressaltado, agitado, e acabou por acordar também o seu irmão mais velho, que dormia próximo dele. O irmão disse:

− O que aconteceu, Ahorel?

− Sonhei com uma voz linda que me dizia para ir até a praia conhecer a minha noiva.

− Sonho? Voz? Noiva? Mas que bobagem, Ahorel. Pensei que você fosse mais inteligente… Durma, meu irmão, que isso é coisa da sua cabeça.

Ahorel recostou novamente e tentou conciliar o sono. Enquanto isso, seu irmão, que tinha um caráter desleal, dirigiu-se silenciosamente até a praia. Mas Ahorel não conseguiu dormir e foi para lá também.

Estavam os dois, diante do grande mar negro, quando surgiu a Barca da Lua, luminosa e brilhante. Sobre ela, uma linda jovem, que penteava seus longos cabelos negros, princesa oriental que era.

− Você me chamou, linda jovem? – disse Ahorel.

− Não, foi a mim que você chamou! – disse seu irmão.

A princesa respondeu:

− Eu chamei aquele que será capaz de me trazer a Pérola que Brilha de Noite.

− Pérola que Brilha de Noite? – perguntaram os dois – E onde é que está ela?

− Está no fundo do mar, no palácio do Rei do Mar Oriental, do outro lado da praia. – E, dizendo isso, tirou duas presilhas de prata dos seus cabelos e jogou uma para cada rapaz, desaparecendo em seguida.

Bem cedo, na manhã seguinte, os dois irmãos empreenderam viagem. O irmão de Ahorel, que tinha o temperamento mais ansioso e agitado, conseguiu um cavalo e saiu a pleno galope. Ahorel, que era sereno e reflexivo, simplesmente calçou as sandálias que ele mesmo havia confeccionado, colocou um chapéu de palha e saiu andando calmamente.

Dias depois, seu irmão chegou a uma aldeia. As pessoas que moravam ali logo o cercaram:

− Por favor, ajude-nos, senão morreremos. O mar está inundando a nossa aldeia. Precisamos da Abóbora Dourada, que está em poder do Rei do Mar Oriental.

− Rei do Mar Oriental? Que coincidência! É para o palácio dele que estou me dirigindo. Fiquem tranquilos. Eu trarei a Abóbora Dourada para vocês.

E seguiu em seu galope. Mais tarde, chegou Ahorel. Os aldeões o cercaram e lhe fizeram o mesmo pedido. Ahorel pensou um pouco e respondeu:

− Se eu puder, trarei a abóbora para vocês.

Responsável, ele não queria prometer algo que não sabia se poderia cumprir. E continuou o seu caminho.

Mais adiante, já do outro lado da praia, encontrou seu irmão, exasperado diante do mar bravio à sua frente. Perguntou-lhe:

− Qual o problema, meu irmão?

− Qual o problema? Você não consegue enxergar? Como poderei chegar ao fundo do mar, ao palácio do Rei do Mar Oriental? Como atravessarei essas águas?

Ahorel coçou a cabeça, pensou um pouco e disse:

− De que servirão as presilhas de prata que a linda jovem nos deu?

Meteu a mão no bolso, pegou a sua presilha e atirou-a ao mar. Nesse momento, no meio das águas abriu-se um túnel que levava diretamente para o palácio. O irmão ficou apreensivo, mas quando viu Ahorel, entrando confiante na passagem, seguiu-o.

Enfim, chegaram ao palácio. O próprio Rei os recebeu:

− Sejam bem-vindos, rapazes. Eu já os esperava. Vamos entrar!

E apresentou-lhe o seu tesouro. Eram peças maravilhosas, ouro, pedras preciosas, tapetes, tecidos ricamente bordados, obras de arte valiosíssimas, as mais belas peças imagináveis e as inimagináveis também. Os rapazes ficaram boquiabertos. Depois, o Rei lhes disse:

− Agora, venham conhecer a sala especial do meu tesouro.

Era ainda mais rica e encantadora do que o que já tinham visto. Então, o Rei continuou:

− É muito raro que um mortal consiga chegar aqui. Por isso, quando alguém consegue, eu gosto de gratificá-lo. Cada um escolha uma peça do meu tesouro. Mas é apenas uma, então, escolham com sabedoria, para que possa lhes trazer felicidade.

Nesse momento, Ahorel avistou a Pérola que Brilha de Noite. Era maravilhosa, e ele, embevecido, lembrou-se da linda jovem. Mas logo sentiu uma pontada no coração, porque lembrou-se, a seguir, do povo da aldeia, que precisava da Abóbora Dourada, que também estava naquela sala. Então sentiu um grande conflito em sua alma: se levasse a pérola, não poderia levar a abóbora, se levasse a abóbora, não poderia levar a pérola. Queria tanto ficar com a linda jovem, ser seu noivo… Mas quando pensava naquele povo que tanto precisava da Abóbora Dourada para continuar vivendo… Se ele não levasse a Abóbora Dourada, toda aquela gente deixaria de existir. E todas as tradições, todo o saber, toda a música, toda a dança, todas as histórias, toda a religiosidade, toda a comunidade, as crianças, velhos e adultos e até mesmo as gerações futuras estariam condenadas. E tudo dependia de sua decisão.

Nesse momento, profundamente tocado de sofrimento, Ahorel conheceu o significado da palavra “sacrifício”. Quer dizer “sacro ofício”, ou “ofício sagrado”. E fez a sua escolha. Disse ao rei:

− Majestade, posso ficar com a Abóbora Dourada?

− É sua – disse o rei.

Enquanto Ahorel pegava a abóbora, seu irmão agarrou a pérola e não soltou mais. Agradeceram, despediram-se do rei e tomaram o túnel de volta. Chegando a praia, o irmão montou o cavalo e seguiu viagem, a pleno galope. Ahorel foi na mesma direção, agora com o passo mais apressado.

Quando o irmão chegou à aldeia, foi cercado pelas pessoas, que lhe perguntaram, ansiosas, se tinha trazido a Abóbora Dourada, que prometera. Ele forjou uma expressão de pesar no rosto e disse:

− Sinto muito! O Rei do Mar Oriental não quis me dar.

E continuou sua cavalgada.

Ahorel chegou mais tarde e vinha gritando:

− Amigos, amigos! Eu consegui a Abóbora Dourada!

Logo os habitantes o alcançaram e cercaram. Então, o rapaz depositou a Abóbora Dourada no chão. Assim que tocou a areia, peça encantada que era, absorveu para si toda a massa de água que ameaçava inundar a aldeia. Enfim, a população estava salva.

− Viva! Viva! Viva! – gritavam. – Viva nosso amigo Ahorel! – e comemoraram, e cantaram, e dançaram e festejaram muito a grande nova. Ahorel se alegrou junto com eles.

Depois, uma criança, brincando na areia, encontrou uma conchinha cinzenta. E deu a Ahorel. As pessoas o cercaram e alguém disse:

− Ahorel, não temos muito para te dar. Mas aceite esse simples presente como sinal do nosso agradecimento e amizade.

Ahorel aceitou, despediu-se de todos e continuou sua viagem. No meio da caminhada, tirou a concha do bolso e a abriu.  Dentro dela, uma pérola pequena e opaca. “Nada de muito valor”, pensou.

A essa altura, seu irmão já havia chegado ao outro lado da praia. A princesa estava esperando. Então ele disse:

− Eu serei seu noivo. Está aqui a Pérola que Brilha de Noite.

− É cedo para verificar. Precisamos fazer o teste quando estiver escuro.

Quando escureceu, ele voltou a apresentar-lhe a pérola. E ela se mostrou tão negra quanto todas as coisas são negras durante a noite. A princesa, então, disse:

− Essa não é a pérola verdadeira.

Ele ficou chocado, sem entender o que acontecia. Quando tocou a pérola, ela se desfez em pó. Não era nada.

Perto da meia-noite, chegou Ahorel. Cansado e um tanto decepcionado. Disse à princesa:

− Sinto muito, linda jovem. Não fui capaz de trazer a Pérola que Brilha de Noite.

− O que você tem no bolso? – perguntou a princesa.

− Nada de muito valor – respondeu.

− Deixe-me ver.

Ahorel entregou o pequeno objeto à princesa. Quando a moça abriu a concha, de dentro dela emanou tanta luz, tanta cintilância, que era como se o próprio Sol brilhasse entre eles, em plena meia-noite.

− Esta é a pérola verdadeira. E o seu brilho é dado pelo teu coração generoso, teu coração de ouro, Ahorel. Você será o meu noivo.

Estendeu-lhe a mão, e saíram caminhando juntos pela Estrada de Luz.

(“A pérola que brilha de noite” é uma história de origem chinesa, recontada por C.M. Christian e presente na coletânea “A pérola: contos de fadas sobre a vida, a morte e o destino”, produção artesanal de Karin Stasch, Botucatu – SP)

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2 Comentários so far
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Muito boa minha professora leu hoje para toda a sala , e toda a sala achou linda rs. e tivemos que reescrever com nossas proprias palavras

Comentário por Jhennifer

a minha professora tambem ela se chama virgilia

Comentário por mariane




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