Verbo de ligação


no aniversário de minha irmã
09/10/2011, 00:09
Filed under: Data, Prosa

Eu e minha irmã Adriana, que faz aniversário hoje

Tinha três anos de idade, mas ainda trago a imagem gravada. Eu olhava pela janela do carro em movimento; chovia em Curitiba. A bordo do nosso fusca, estávamos a caminho da maternidade: eu, Papai e Manoel, meu irmão mais velho.

Guardo outros flashes: de estar andando pelos corredores do hospital, de chegar ao quarto. Mamãe estava amamentando o bebê que acabara de nascer, minha irmã, e ficou alegre em nos ver. Já em casa, Manoel entrou devagarinho no quarto dos nossos pais com o embrulhinho nos braços. Achei-o muito importante, carregando o nenê. Pôs em cima da cama. Depois disse pra mim:

– Olha a nossa irmã!

Olhei e achei estranha a coisinha. Depois fui me acostumando.

Dias ou semanas depois, Maneco descobriu que a cabeça dela não era completamente dura. E nós praticamos, algumas vezes, o singelo hobby de apertar a moleira da menina… Crianças são doidinhas, não?

Até que Mamãe descobriu, horrorizada, e ralhou com a gente. Mas, felizmente, ao que tudo indica até o momento, não houve grande prejuízo.

Então fomos crescendo. Enquanto éramos crianças, tive muito ciúme e raiva dela. Era sempre a pequenininha, a coitadinha, a ingênua. Acontece que a fofa não era tão inocente assim. Como todo caçula, tirava proveito da proteção. Sabia aprontar sem aparecer e, às vezes, sobrava pra mim. E eu ainda tinha que suportar todo mundo dizendo que aquela menina era linda, que tinha uns olhos maravilhosos e que era uma simpatia. Ai, ai, ai, que dor de cotovelo!

Seja como for, admito: ela sempre teve uma elegância natural: fazia aquelas estrelas perfeitas, como baliza, no desfile de Sete de Setembro; sabia nadar deslizando, sem levantar uma gota d’água, e sempre foi atenta ao vestir…

Mas sua infância não foi só de glórias. Tinha que me aguentar exigindo reverência por ser mais velha – ao que resistia bravamente. E suportava ter seu boletim de escola comparado ao meu, que exibia, digamos assim, matizes mais azulados. Além disso, de quando em quando, eu tinha rompantes de organização e, certa vez, ao encontrar suas roupas amontoadas em cima da cama no quarto que compartilhávamos de péssimo grado, cheguei a jogá-las, gentilmente, pela janela…

Resultado: vivíamos aos tapas.

Mas eis que um belo dia, talvez porque cansadas da própria ruindade, entendemos que nossa convivência de irmãs podia ser diferente, melhor. A gente confessou que gostava muito uma da outra, chorou, se abraçou e fez um pacto de amizade.

Deu certo. Até hoje o honramos.

Não que a nossa amizade seja só veludo: às vezes ela fica brava comigo. Às vezes eu fico brava com ela. Aí respeitamos nossas emoções, damos um tempo.

Mas nosso bem-querer sempre se revela mais forte que as nossas picuinhas. A tolerância às diferenças é um dos aspectos que mais experimentamos em nosso contato. E temos aprendido que, por mais que a gente ame, por mais que seja íntimo, não pode invadir o espaço do outro, não pode simplesmente falar o que quer a respeito da vida do outro, principalmente se nossa opinião não é solicitada. Vamos compreendendo que o outro sempre tem boas razões, ainda que não estejam claras pra nós – e talvez nem para ele próprio – , para ser como é e fazer o que faz.

Assim, enxergamos o mundo com lentes bem diversas, escolhemos modos completamente diferentes de viver, mas compartilhamos princípios de vida. Moramos em cantos opostos do país, a milhares de quilômetros de distância. O que não nos impede de estar, nos momentos mais relevantes, uma perto da outra, nem que seja por telefone, por e-mail. E recadinhos de bom dia não faltam em nossos celulares. Nas férias, meu filhote, que é fisicamente parecido com ela, vai passar uns dias em sua casa, onde é tão bem recebido pelos titios que fico comovida.

E a menina que pouco queria saber de estudar encontrou algo no mundo que a interessou bastante: minha mana é fonoaudióloga de mão cheia, especializada em deficiências severas de linguagem. Seu trabalho é comovente, ela é competente, criativa e afetuosa com seus pacientes. É uma pessoa que certamente torna o mundo melhor.

Hoje é seu aniversário. Uma boa oportunidade para homenagear esse ser humano tão especial na minha vida e na de muita gente. Ela é amiga, é ética, é responsável, é bondosa, é dedicada, é perseverante. Não consigo – e nem quero! – imaginar minha história sem ela. Merece tudo de bom. E sei que tudo de bom que ela merece virá a seu tempo. Feliz aniversário, querida Adriana!

Onides Bonaccorsi Queiroz

Anúncios

3 Comentários so far
Deixe um comentário

Amada, agradeço a Deus por ter me presenteado com uma irmã abençoada. Te amo e não deixo de pensar em você e Tonico um dia sequer!!! Claro que o choro foi inevitável antes, durante e depois de ler seu texto! Beijos e obrigada.

Comentário por Adri

Olá Onides, hoje tive a curiosidade (acho que “felicidade” é mais apropriado) de acessar o Verbo de Ligação. Que delícia !!! Como foi gostoso desfrutar desses textos tão cheios de paixão, ternura, amor, perdão e gratidão. Sensibilidade pura. Parabéns ! Não posso deixar de comentar sobre a querida amiga Adriana: com tanto carinho seu dedicado a ela, essa menina só podia ser mesmo muito especial. Família Linda !!!

Comentário por Evandro

A irmã delinquente! Saudades!

Comentário por Daniel Delgado




Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s



%d blogueiros gostam disto: