Verbo de ligação


liberdade
20/09/2011, 15:54
Filed under: Prosa

Já se aproximava dos 80. Ainda trabalhador.

Tinha longos anos de roçado. Agora, adaptado na cidade, Dimas passava horas do dia cuidando da horta, cuja produção saía para vender antes de o sol nascer, no mercado central.

A atividade constante lhe dera um físico ágil e esbelto. E sua aparência rude, no corpo maltratado pela vida sem conforto e nas vestes modestas, não o impedia de ter um andar sereno e elegante. Que denunciava sua alma sofisticada.

Era mesmo discreto, correto, educado. Introvertido até.

Homem de fé, entregava-se aos deveres religiosos com silenciosa satisfação. E exercia a bondade no trato com todos. Era respeitado, considerado um homem de bem na comunidade.

Compunha um notável contraste com a mulher, com quem tinha filhos e netos. Ela, gordota, falastrona e passional, eventualmente se envolvia em confusões na vizinhança. O que só fazia evidenciar a sobriedade do comportamento do marido.

Ao final do dia, asseado, ele se concentrava diante da programação da TV, de bermudas e camisa aberta, a espantar o calor que se acumulava na casa quente.

Pois naquele começo de noite, receberam visita. Uma moça que morava nas redondezas passeava e, vendo a mulher de Dimas no jardim, acercou-se. Convidada pela dona da casa, entrou. Viu o homem na sala contígua e lhe acenou, ao que recebeu resposta. Depois se sentaram, a conversar, durante algum tempo. Até que a visitante ameaçou despedir-se.

De repente, o velho Dimas cessou de olhar para a tela da televisão, virou-se e encarou fixamente as mulheres. Levantou-se, desceu um degrau até a varanda e se aproximou da dupla. Foi se encaminhando gentilmente para o lado da mais nova.

Que não pôde deixar de estranhar a atitude do homem naquele momento, pois ele nunca lhe dirigira mais do que um olhar instantâneo, um breve cumprimento. Mas se deteve em observá-lo. Até que ficou de frente para ela. Sorriu-lhe, tomou suas mãos e lhe deu um beijo em cada face, como que francamente encantado com sua juventude e beleza.

Ela, sensibilizada pela legitimidade que reconheceu no gesto, acabou por compreender aquela simpatia e acolheu-lhe o sorriso, como que francamente encantada com sua espontaneidade e singeleza. Viu que o ancião era livre e natural, sábio e valoroso.

Sim. A dez dias da morte, Dimas já sabia exatamente o que valia a pena na vida.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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