Verbo de ligação


o fim da maldade
30/08/2011, 19:18
Filed under: Prosa

“Maldosamente”, ouvi o homem dizer, atribuindo, assim, dolo e ciência ao sujeito de sua narrativa.

Instantaneamente, percebi com alívio que aquela ideia tinha deixado de fazer sentido para mim.

Não acredito mais em maldade.

É claro que há atitudes, ações e palavras que, movidas pelas mais mundanas motivações, causam dano a indivíduos, a grupos ou ao ambiente. Infelizmente, tenho sido testemunha e, eventualmente, vítima de algumas. E, nessas horas, que raiva!

Mas, já ia me esquecendo, às vezes sou agente também.

Recentemente, presenciei um avô desqualificando a opinião e a pessoa de uma menina em seus cândidos dez anos, arrematando a interferência cruelmente: “tu tem é que ficar quieta, gorda”. Misericórdia. Quanta violência contra o espírito de um inocente!

Aliás, “violência” me parece um termo adequado e vasto o suficiente para substituir o maniqueísta “maldade”. Por quê?

Porque a violência, sutil ou grosseira, é um fato. É uma ação agressiva. Que provém da ignorância, do medo, da necessidade compulsiva de se proteger e da própria experiência de ter sido agredido. Os sete pecados capitais têm aí sua gênese. E nunca foram fruto da sanidade.

Enquanto que falar em “maldade” é emitir um juízo de valor. É uma concepção moral que deriva da suposição de que a pessoa “sabe” o que está fazendo.

E aí está assentada, a meu ver, a chave da questão. Pode haver intenção, desejo de ferir, ou, simplesmente, indiferença com o sofrimento alheio, se for esse o preço para se obter vantagens particulares. Entretanto, a consciência propriamente dita abarca não apenas informações, mas sabedoria, ética e compaixão. Aponta para a integração, a unidade. Para o entendimento de que “dois” é uma ilusão.

Por isso, não vejo gente maldosa. Vejo pessoas medrosas, sem ferramentas para elaborar seus conflitos e crescer. Pessoas que permanecem infantilizadas em desejos e crises primárias e vêem, como única alternativa de gratificação, aprimorar-se no exercício da manipulação. Pessoas que, mesmo quando parecem tão poderosas em suas arbitrariedades, revelam-se obtusas e limitadas. A ação nociva é uma solução egocêntrica, autorreferente, tacanha. Por umas moedinhas reluzentes, seus adeptos se furtam aos legítimos prazeres da existência, profundos e duradouros. E atolam cada vez mais na roda do sofrimento. Eis a sua colheita.

Compreender a dinâmica desse estágio da evolução humana traz uma reconfortante qualidade de perdão à vida – eu não disse conivência. Sobretudo, faz emergir a autoanistia: “posso errar, mas tenho a chance de fazer de novo, melhor”.

Porque desenvolvimentista de verdade, só o amor.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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