Verbo de ligação


positivo
01/07/2011, 15:30
Filed under: Prosa

Quando abri o envelope do exame e li “positivo”, meu intelecto acusava que algo importante tinha acontecido. Mas me parecia tão abstrata aquela informação!

Foi apenas durante a primeira ecografia que comecei a compreender a nova. A médica disse: “Ouça!” E eu escutei a canção mais linda de toda a minha vida: as batidas do coração do meu filho. Que hora mais solene. As lágrimas saltam dos olhos da gente, mãe e pai.

Aí o ventre foi crescendo e a realidade foi se tornando palpável. Mas intrinsecamente palpável. Então era real, mas permanecia mistério.

Enquanto isso, o design divino me ensinava que linhas curvas e cheias evocam gentileza, aconchego, acolhimento. Logo, o feminino. Logo, maternidade.

De repente, despertei. Vi-me inserida na instância que me parecia uma velha conhecida: a pátria das mães. O universo das que cuidam. Das que zelam. Das que defendem. Das que dão a vida, se necessário.

A velha miopia diminuiu um grau, anunciando que o egocentrismo enfim afrouxava. Pudera. Minha noção de identidade ficou mais imprecisa, o que, garanto, não é nada confortável, sobretudo para uma taurina.

Mas passei a dirigir com mais cautela. A mente ficou mais atenta, o pé, mais leve. O bem-estar de alguém mais, além de mim, dependia do meu – situação absolutamente nova e instigante.

Então soubemos o sexo: masculino. Uau, sempre quis ser mãe de menino. E ele passou a se chamar Antônio. Amo esse nome e é como se desde tempos imemoriais eu o sentisse gravado na minha alma.

Contente, ia caminhar assim que o sol nascia e contava-lhe como era aqui fora. No verão, estava no oitavo mês de gestação e fui à praia. Entrava bem cedinho nas águas geladas do mar do sul, deixava as ondas baterem na barriga e brincava com a espuma, começando a relembrar a minha própria infância. É bom demais aqui, meu filho! Você vai gostar muito do mar. – E ele gosta.

Cantei pra ele, contei-lhe histórias. Tivemos nove meses para nos tornarmos um. No final, eu lamentava a separação física iminente. Só mesmo o peso da barriga para me ajudar a apoiar a contagem regressiva da natureza.

Ele chegou numa terça-feira de carnaval, exatamente na entrada da lua cheia. Nasceu rápido, o trabalho de parto durou menos de três horas. A equipe médica toda era composta de mulheres. Senti-me à vontade, protegida. E enfim entendi Leboyer, quando sugere que o pai não participe do parto, por ser um momento em que a mulher precisa buscar toda humildade possível para fazer o filho nascer e, portanto, testemunhas familiares podem lhe constranger. Pra mim, isso foi absolutamente verdadeiro. Achei foi bom que o plano de saúde achou de encrencar – ah, eles são craques nisso… – justo naquela hora e manteve o papai do Antônio bem ocupado…

Enquanto a obstetra não chegava, acompanhou-me uma doce senhora, parteira de uns 60 e alguns anos, com os cabelos branquinhos e a voz muito macia e firme. “Força, filha”, dizia, durante as contrações. Sua presença foi uma dádiva. Onde quer que esteja, que receba minha gratidão.

A médica veio e eu, com a percepção aguçada pela dor, compreendi, observando sua atitude, que tinha absoluta segurança na condução de um parto natural – saber tão raro hoje em dia, principalmente no nosso Brasil. Vi, claramente, que era portadora da mestria da obstetrícia e me entreguei, confiante, ao seu comando.

Antônio nasceu em menos de 20 minutos.

Veio e mudou tudo. Ainda me lembro do momento em que entrava em casa com o pacotinho de bebê nos braços, um pouco confusa com a nova realidade.

Nunca mais fui a mesma. Na verdade, sinto-me cada vez melhor.

Parece que foi ontem, mas já faz 10 anos. Agora, posso refletir, com um pouco mais de vivência: é necessário que a mãe dê a vida?

É. Todos os dias. Quando olha, quando atenta, quando deixa o mundo pra lá e vai atender o filho, brincar com ele, nem que seja por dez minutos, quando o toca, quando faz carinho, quando sabe dizer não, quando pode dizer sim e diz, quando deseja, quando prepara, quando persevera diante da dificuldade, quando estimula, quando muda, se preciso, quando mostra ao filho que mãe também é um ser humano, com direitos e falhas, quando busca a própria felicidade e, assim, dá referência de felicidade ao filho.

Ô, meu Deus. Tinha tanto dentro daquele envelope, que eu ainda não descobri tudo.

 

Onides Bonaccorsi Queiroz

 

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1 Comentário so far
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Lindo!
Só uma pessoa especial como minha comadre querida para escrever tamanha doçura.
Te adoro sempre.
Sil

Comentário por Sil Camargo




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