Verbo de ligação


instituto ecumênico fé e política: onde cabem todos
28/03/2011, 15:08
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“Uma vez um amigo me contou um sonho. Disse que estava indo a um culto religioso. Caminhava com muita alegria e as ruas estavam cheias, pois para lá iam também muitas pessoas. Todos os seus amigos, a sua família e mais uma porção de gente que ele não conhecia, mas que ainda assim estavam longe de parecerem estranhos, pois emanavam uma atitude de empatia irresistível.

A reunião seria ao ar livre, porque, tanta gente assim, só a natureza poderia receber. O dia estava luminoso e agradável. Ele vestia roupas claras e leves. As pessoas estavam belas, enfeitadas, homens e mulheres. Era como uma grande festa a que todos tinham sido convidados e à qual ninguém queria faltar.

O culto não tinha nome, mas todos conheciam o que seria adorado: o amor. Meu amigo disse que se sentia tilintando de felicidade, como já havia esquecido que poderia sentir, desde a infância. Narrava com tanta convicção e verdade que seus olhos se enchiam d’água – e os meus também. Era como se estivesse enfim recebendo tudo o que faltava em sua vida.

Então, no auge da sua alegria, durante o sonho, um pensamento o capturou. “Espere aí: Luís é evangélico, Marisa é umbandista, Sérgio é judeu e minha mãe é católica. Como podem estar todos indo ao mesmo culto? Deve haver um engano, isso não existe.” No mesmo momento em que a lógica cartesiana, a dúvida e a negação ganharam espaço em sua mente, todos sumiram e escureceu. A festa mal começou, já tinha acabado. E ele voltou a ficar sozinho e triste.

Mas, quando acordou, surgiu-lhe uma compreensão: ‘O único lugar em que a união precisa se realizar é dentro de mim’”.

Toda vez que alguém aposta na idéia do ecumenismo, ela ganha força e se torna realidade. Em vários lugares do mundo, essa concepção tem emergido e conquistado adeptos. Ainda que timidamente, vai se erguendo e se firmando como verdade diante de uma prática que é bem comum e resistente, além de agressiva, mas muito frágil em essência: a intolerância religiosa.

Em Rio Branco, Acre, desde 2005, algumas pessoas que seguem credos diferentes, mas que comungam da fé no princípio do respeito e da fraternidade, resolveram se encontrar e trocar idéias sobre o assunto. Em 2007, fundaram o Instituto Ecumênico Fé e Política na cidade. Reúnem-se todo mês para debater questões que dizem respeito ao bem-estar coletivo: educação, meio ambiente, ética e outras. E planejam ações conjuntas.

O cenário em que ocorrem essas reuniões pode assustar – e assusta! – os setores mais ortodoxos de diversos credos, mas é certamente animador a quem aspira, com mais liberdade, ao desenvolvimento humano. Ali se sentam, lado a lado, católicos, umbandistas, daimistas, candomblecistas, evangélicos e outros. E buscam o que têm em comum. Afinal, é natural que só se possa estabelecer a paz mediante tolerância.

Mas por que essa cena – ainda – não é tão comum assim? O problema do preconceito é que não se trata de um impulso processado na consciência, mas na inconsciência humana. É fruto da ignorância e, ato contínuo, do medo. O medo pinta os nossos olhos de sombra e nos faz projetar no outro nossos próprios fantasmas. Então acusamos, julgamos, condenamos. 

E aí, todos perdemos. Os que discriminam, os que são discriminados. Porque a desunião aponta para o desequilíbrio e a doença. Seja individual, seja social. Não por acaso, na palavra “esquizofrenia”, o prefixo “esquizo” significa cisão, separação. A divisão pertence ao domínio da loucura.

Já a união cura. Inúmeros profissionais da saúde têm narrado o imenso poder regenerador do perdão. A união nos traz novas possibilidades, novas oportunidades, novos amigos. E aí percebemos que não existe “outro”. O outro somos nós mesmos. Com essa percepção, toda a espécie é promovida à evolução.

Assim, a pluralidade das religiões precisa ser vista pelos adeptos de cada credo não com hostilidade, como se a diferença significasse um sinal inequívoco de que é preciso se contrapor àquela “estranha” manifestação. Mas fundamentalmente com gratidão à misericórdia divina, que se apresenta ao ser humano com as infinitas roupagens das inúmeras culturas que existem, e lhe dá, dessa maneira, maior chance de aproximação e acolhimento.

Instituto Ecumênico Fé e Política Fone: (68) 3224-3843

Onides Bonaccorsi Queiroz

(Artigo publicado no Jornal Página 20, de Rio Branco (AC), em 26.03.2011.)

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7 Comentários so far
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Onides querida.

Que bom saber que ainda existem pessoas preocupadas com a fraternidade, com a união.
Agradeço suas palavras sábias, amorosas, cheia de sabedoria como sempre foram. Escreva mais,divida conosco a Luz desta fonte de sabedoria.
Aproveitando para unirmos mais um pouco, só para um lembrete hoje é dia de Kuan Yin.
Beijos
Eduardo

Comentário por eduardo henrique romero neto

Querido Eduardo:
Fui ao Dr. Google ter notícias de Kuan Yin:
É considerada a “Deusa da Misericórdia” entre os budistas. Mais uma das faces da Grande Mãe.Salve!

Comentário por Onides Queiroz

Querida, que legal seu blog! Achei por acaso… estou ainda lendo as postagens!!! Coloquei nos favoritos!!

Esse post sobre o IEFP foi lido em alguma das reuniões? Se não, acho que deveria!!

Parabéns!

Beijos e inté!

Paz e bem
Thiago.

Comentário por Thiago Martins e Silva

Oi, Thiago!
Bem-vindo.
A matéria foi publicada exatamente no dia da última reunião do Instituto. O Pacífico me disse que iria comentar na próxima.
Abraço.

Comentário por Onides Queiroz

“Yes is the answer” John Lennon
O sim enfraquece o ego. O não o fortalece.
Parabéns pelo texto. Vida longa ao IEFP!

Comentário por Marco

Olá Onides! Eu sou de Belém-PA e ano que vem irei morar em Rio Branco-AC. Estou interessada em entrar em contato com o Instituto Fé e Política, ainda mais porque soube que está tendo uma conferência de diversidade religiosa em Rio Branco, infelizmente estou perdendo… Sou mestranda em Ciências da Religião pela Universidade do Estado do Pará, e pretendo atuar nessa área (na educação básica, com o ensino religioso, e/ou em cursos lato sensu em faculdades particulares) quando me mudar para a cidade. Obrigada desde já pela atenção! Bjs!

Comentário por Mayra

Ah! quando eu finalmente for morar em Rio Branco, gostaria de saber e participar das reuniões do IFP. Costumo participar das reuniões do Comitê inter-religioso do Pará e acho muito válido e importante esse diálogo. 🙂
podemos manter contato? Abraços! Mayra
(meu email: mayrafaro@yahoo.com.br)

Comentário por Mayra




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