Verbo de ligação


enquanto aprende a ser mulher
09/03/2011, 21:46
Filed under: Prosa

Isabel é amável e solícita. Trabalhadeira que só.

Chega bem cedo, faz o café, lava a louça, limpa a caca do cachorro, lava a roupa, passa, limpa a casa, faz a comida, serve, deixa a cozinha em ordem e só então vai embora.

Depois tem sua morada para arrumar. O terreno e a casa comprou com a ajuda dos patrões. Ali mora com o marido, quatro filhos e uma neta.

Apesar de já ter tanto trabalho, para aumentar a renda doméstica, há pouco arranjou um carrinho para vender tapioca nos finais de semana e nos feriados.

Combinou com o companheiro o seguinte: ela compraria o carrinho e a goma, também faria as tapiocas. Ele sairia para vendê-las. O acordo foi cumprido nos primeiros dias. Agora ele não vai mais não.

Por quê, exatamente? Não se sabe. Sabe-se que ele coleciona desempregos há muitos anos. Aprendiz de pedreiro, quando parece que está se adaptando ao trabalho, envolve-se em confusões e abandona o posto, ou é demitido. Mas não é tudo.

Ele também bebe. E aí perde a pouca disposição para ajudá-la. Então lá vai ela com o carrinho vender tapioca.

Detalhe: faz tudo isso com dores e inchaços, pois sofre de reumatismo. É fácil saber quando Isabel está com dor: não canta e não ri.

Teme ficar “entrevada” como a mãe. E corre atrás de tratamento. O que lhe exige grande dose de persistência, para conseguir marcar uma consulta, e paciência, para esperar por ela. Depois reza pela boa vontade dos funcionários da saúde pública.

Da última vez que esteve no posto, chegou na hora certa, mas a atendente lhe disse que a doutora já havia ido embora. Pois ela chorou de desespero e falou das dores que sentia para a moça. A tal não moveu um músculo. O guarda, que acompanhou a cena, soprou-lhe no ouvido que a médica estava sim na unidade, no andar de cima. Isabel foi até lá, havia oito esperando consulta em sua frente. Acabou por ser atendida, disse que com muita “atenção e humildade” pela médica, que aventou a possibilidade da aposentadoria, dado seu estado físico.

Faz sentido. É evidente que, aos 34 anos – e já é avó há dois –, está exausta ao extremo. Afinal, leva o mundo nas costas.

Precisa tanto da parceria do marido para compartilhar as responsabilidades que lhes são comuns, mas o homem não se compadece do sofrimento dela e se comporta como um fardo.

Quem vê de fora há de se questionar: ela dá tudo, ele não dá nada, por que ela não o deixa?

Porque se sente muito, muito só e abandonada. Bem ou mal, ele é o seu homem, o seu companheiro, o pai de seus filhos. Apesar de tudo, não quer perdê-lo. Também não quer perder – e isso não contou nem pra si mesma – o orgulho de ser capaz de carregá-lo. Eis o seu arremedo de amor-próprio, já que não conhece o tanto valor que tem.

Enquanto isso, com sintomas de reumatismo, a vida protesta dentro dela.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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