Verbo de ligação


o sonho do amor
23/12/2010, 14:29
Filed under: Prosa

O mais expressivo entre os símbolos de Natal: para mim, o presépio.

Porque remete diretamente ao motivo desencadeante da grande comemoração mundial: o nascimento do Menino Jesus. Objetividade fundamental para este tempo em que a humanidade, viciada em gratificações grosseiras, tanto se empenha em desenvolver elaborados mecanismos de esquecimento e fuga em relação a tudo o que possa representar ascensão na caminhada evolutiva.

A tradição do presépio, desde sua elaboração até a apreciação, está cercada de poder: fé, intenção, planejamento, criatividade, atenção, pesquisa, trabalho, meditação, aperfeiçoamento, realização, fortalecimento da identidade cultural e espiritual, louvor, agregação e contemplação. Sobretudo: esperança.

A esperança de algo novo, que venha nos libertar do sofrimento. Assim, o que importa nos presépios é que sempre contam a mesma história. A história de uma promessa muito feliz: o sonho do amor, enfim realizado. E quem conta tem a liberdade de fazê-lo a seu modo: cada pessoa, cada família, cada nação.

Produzidos pelas mais distintas etnias, tive oportunidade de apreciar presépios espetaculares. Lembro-me de um italiano que era todo devoção traduzida em fina porcelana. E alemães, imensos, cheios de luzes e engenhosidade. Tão pueris os andinos e os nordestinos, de cerâmica pintada. E conheci um africano, orgânico e majestoso, entalhado em madeira escura: uau, uma Sagrada Família negra! Incrível também aquele japonês, de origami. Especialmente tocante, ilustrando a sabedoria dos orientais em identificar e reverenciar os seres que se dispuseram a trazer luz à Terra. E o mais comovente e encantador, que se verifica no resultado de tantas e tão variadas expressões, é que não há limite de beleza e originalidade para essas composições de Natal.

O precursor dessa arte, tinha que ser ele, aquele servo de coração devotado: Francisco de Assis. O amável São Francisco. Conta-se que montou o primeiro, com modelos vivos. Quando? Parece óbvio, mas penso que seja antes genial: exatamente numa noite de Natal, no século XIII. Em “Pobre de Deus”, uma das biografias mais inquietantes sobre essa criatura ímpar, o escritor Nikos Kazantzakis narra ou imagina, ou ambos, algo sensacional e sublime: embora parecesse, ao público presente, faltar um bebê para representar o grande protagonista da Noite, no momento exato, o Menino Deus surge todo em pura luz ao colo de Francisco. Quem puder acreditar… Que se deleite.

E o que dizer das imagens da Noite Feliz que as crianças produzem? São enternecedoras. O que poderia espelhar melhor a mensagem de singeleza e magia que a data evoca? Uma vez, há uns anos, meu filho trouxe da escola um presepinho de peças de papel recortadas, montado em cima de uma caixa de leite longa vida forrada com crepom azul-claro. Doçura: a inocência da criança me entregando de boa vontade seu trabalhinho, com toda a irregularidade de sua pintura e colagem. Sobre um palito de espetinho, a Santa Estrela de cabeça para baixo, em curva ascendente… Ah, mas que linda homenagem para o querido Menino!

Precisávamos, então, de um espaço para acolher a obra! Andamos pela casa e encontramos um nicho perfeito: a lareira, moldurada de pedra. Ali depositamos. E ficamos a admirar. Até que nos ocorreu iluminar o cenário. Comprei um circuito de pisca-pisca e juntos envolvemos o presépio com ele. Prende daqui, cola dali, quando chegou a noite, apagamos as demais luzes e apreciamos o efeito da nossa instalação iluminada. Nossa, era um pedacinho do céu! Não quero esquecer nunca a figura do meu pequeno todo concentrado, conferindo a Noite Feliz que emergiu de dentro de si.

Porque, se os nossos olhos enxergam o presépio, é dentro de nós que se processa o significado da Natividade de Jesus, com seus tantos ingredientes de bem-aventurança: a bênção divina contida no novo, uma criança amparada pela mãe carinhosa e pelo pai presente, a visita amiga dos humildes pastores, a harmonia com os animais, a reverência ao sagrado prestada pelos sábios reis, a proteção dos anjos…

Por isso, feliz de quem é capaz de se supor testemunhando aquele momento. E mais ainda daquele que compreende que, muito mais que visitantes, somos convidados permanentes da Noite Santa.

Por essas e por outras, tenho um carinho todo especial por presépios. E, como se recebesse um presente, assisti às reflexões que trago comigo serem coroadas, certo Natal, por uma única frase. Foi dita pela avó do meu menino, do alto de seus 78 anos. Terminava a tarde do dia 25, e ela foi nos visitar. Entrou lá em casa e ficou parada em frente ao presépio. Depois resumiu, após momentos de silêncio e contemplação, com a serenidade dos anciãos que provaram da sabedoria:

– Olhar o presépio acalma.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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3 Comentários so far
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Mais uma vez montamos o pequeno presépio na lareira, como desejou o nosso filho. Divino momento tão lindamente descrito por tuas palavras.

Comentário por O filho da avó do teu menino

Mana querida ! Ver a beleza desses presépios através dos seus olhos tão poéticos…é um singelo presente de Natal. A mim, tambem sempre encantou, desde criança, e até hoje, essa magia que existe nesses “pedacinhos do céu..” E vc precisa ver então um presépio acreano minimalista que ganhei mesmo na véspera do Natal! Um primor de artesanato, que só aqui mesmo pra gente encontrar. Que o divino Mestre Jesus abençoe a cada dia o seu caminho ! Amém !

Comentário por silvana

Onides:
Parabéns pelo blog. Gostei de relembrar d”O pobre de Deus”, livro que li há muito, e figura que muito admiro.
abs
Gilvan Almeida

Comentário por Gilvan Almeida




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