Verbo de ligação


o berço
15/11/2010, 18:09
Filed under: Prosa

Acordava com o coração galopando. As pernas tremiam. A boca seca. Eram já tão escassas as horas de dormir e quando despertava assim assustada muito custava a conciliar o sono.

Perseguiam-lhe repetidos pesadelos que envolviam funerais, velas, enterros, coroas de flores. Até cheiro de crisântemos sentia. E aquela visão da urna. De onde sempre guardava distância.

Experimentara todo aquele medo nas semanas seguintes ao nascimento do filho. Depois passava o dia cozinhando as imagens, revivendo as cenas. Em meio a tantas fraldas, banhos, cólicas, trocas, arrotos, nanas e todo o desvelo infinito de servir a um filhote, ruminava. Não compreendia. Como era possível? Amamentava, assistia realizar-se em seu corpo o milagre do sustento, sentia a vida pulsar com tanta força no bebê, tudo era tão novo e vibrante. Por que lhe cercava o tema da morte?

Todas as noites, incansável, o fantasma lhe batia à porta. Até que se fartou das ameaças. E traçou um plano.

Fez da sua incompreensão uma questão. A dúvida tornou jornada. Do pavor fez curiosidade. Por brio, empreendeu sua aventura íntima.

Observou, recordou, lançou-se perguntas. E rezou.

A presença convocada, não tardou a intuir: “aproxime-se do caixão e olhe dentro dele.”

Ah, justo isso! Tudo o que ela menos queria, logo o que lhe causava mais pânico, desespero, asco, vertigem, horror.

Negou com veemência: “Deus me livre!”, “de jeito nenhum”, “nunca”.

Então percebeu sua rejeição muito corpulenta. Desconfiou. “É por aí”, conjeturou seu espírito de investigadora. E puxou o fio da meada.

Para começar, imaginou a ação. Depois admitiu. E, por fim, propôs-se.

Chegando ao set onírico, que àquela altura já lhe era tão familiar, lembrou-se da tarefa. E iniciou a empreitada. Comandou o andar, mas foi muito laborioso colocar-se em movimento no sonho. As pernas não respondiam, pesadíssimas. Pensou em desistir.

Quando lhe emergiu a humilhação de reconhecer-se tolhida por aquele medo. E sentiu muita raiva de ser escrava. Com mais decisão, ordenou que andasse. Muito esforço a romper a barreira, invisível, e conseguiu caminhar lentamente em direção àquele terrível… Cadáver.

Então ousou aventar “vai ver que eu morri” e chegou diante da urna funerária. Olhou. Vazia.

Que oco desconcertante! E acabou o sonho.

Acordou, lembrou-se de tudo e achou mesmo surpreendente que ninguém tivesse morrido.

Mas morreu, sim. Morreu quem ela era antes. Aquela que tratava só de si. Aquela que fora apenas filha, a que era cuidada. Morreu e não morreu: transformou-se, cresceu.

Foram-se os pesadelos. Nasceu a mãe.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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