Verbo de ligação


o amado
07/10/2010, 17:49
Filed under: Prosa

Eu não reparei o exato momento em que ele se foi. E nem de uma só vez constatei que havia partido.

Quando me dei conta, estava sozinha. E fui ficando triste porque, com ele, meu gosto de viver também foi embora.

Com o tempo, compreendi que, sem perceber, eu é que o abandonara. Talvez para cumprir a sina humana de precisar perder para conhecer o valor, eu me distraí dos seus primores. Pois agora me sobram oportunidades para lamentar: que falta ele me faz!

Tenho-o procurado por toda parte. Em algumas ocasiões pressinto sua proximidade. Algumas vezes vem me visitar em sonhos.

Numa noite de festa nos reencontramos. Enlouqueci de alegria. Cantei e dancei, comemorando a sua presença. Meu corpo vibrava, vivo como eu já não me lembrava que podia ser. Minha alma celebrava tanta bem-aventurança. Estava frio, mas havia uma fogueira grande, quente, colorida e faiscante como nosso enamoramento. Diante dela, ficamos. Reconhecemos a nossa vocação para sermos amantes e receamos, divertidos, explodir de contentamento. Não pronunciamos palavra. Corromperia nosso altar de gratidão. Mas um leve sorriso adornava nossa face serena.

Aprendemos a paz. Nada nos perturbava, nada nos preocupava, nada nos fazia lamentar. Éramos absolutamente completos, belos, brilhantes. Vinham de longe contemplar a nossa luz. Recebíamos todos cordialmente. Amávamos tudo e de nada precisávamos; tínhamos a nossa união.

Não me recordo de momento mais feliz em minha vida.

Quem me dera reter aquele tesouro, mas o vi escoar lentamente entre meus dedos. E voltei ao deserto.

Na ausência dele, as minhas ilusões. Os meus vícios. Os meus preconceitos. Minhas paixões mundanas, que tanto prometem e nada entregam – antes saqueiam. As minhas negligências e os meus pecados. As minhas obsessões.

Quando como demais, é de saudade. Se compro demais, é por ele que clamo: te quero, te quero, te quero. E todo o medo que sinto é o medo de não vir a recuperar sua companhia.

Ô Deus! Tem piedade de mim. Restitui-me tão precioso bem.

Sinto que o desejo cada vez mais. Por ele todas as buscas, todos os movimentos, todos os protestos, todas as esperanças, toda a resistência e todos os sonhos, principalmente os inéditos. Por ele a minha vida e todos os meus poemas.

De sua parte, envia-me bilhetes de carinhosas instruções e anima tudo o que de bom eu seja capaz de fazer.

Também meu amado me quer. Espera uma chance de ser acolhido e ficar para sempre.

Está bem perto. Aqui no meu coração Mas vive recluso. Que ainda não sei abrir a porta para fazer dele eterno dono da minha vida: o amor.

Onides  Bonaccorsi Queiroz

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2 Comentários so far
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Triste sina a nossa: perdê-lo para reconhecer o seu valor.
Também eu o procuro com paixão. Que possamos encontrá-lo breve.
Como sempre, um belíssimo texto, de uma delicadeza apaixonante. Beijos.

Comentário por Marco

Maravilhosooooooooooo! Fiquei encantada. Que texto rico. Parabéns
.

Comentário por Marcia Policarpo




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