Verbo de ligação


quando enfim o beijo
13/08/2010, 14:50
Filed under: Prosa

No primeiro instante, os olhos enxergam um continente novo. De algum modo atraente. É o outro.

A atração pode durar segundos, horas, anos. Suave ou intensa, é uma fome. Um ímpeto que quer se saciar.

Ocorre, às vezes, que a atração é mútua. Quando isso acontece, a natureza vibra de alegria. Porque estão dispostas as condições básicas para criar mais vida.

A natureza não pergunta se há pertinência, permissão, legalidade, moralidade. A natureza apenas escuta a comunicação que se estabelece aquém das palavras, entre dois seres que se sentem impelidos um para o outro. Que sofrem o efeito de uma força invisível e insondável magnetizando olhares e corpos: o erotismo.

 A seguir, pode-se manifestar a razão, a avaliação da conveniência da união que se quer realizar.

Apenas isto já pode ser motivo de mover montanhas e desviar cursos de rios, o relevo dos sentimentos pode sofrer grande alteração, qualquer que seja o processamento e o resultado dessa verificação.

E, diga-se que, pelas justificativas que considerarem legítimas, esses dois consintam tal possibilidade… Aí se abre uma realidade iluminada onde o fantasma da solidão se recolhe e os enamorados julgam-se enfim salvos.

Dentro dessa circunstância tão singular, pode ocorrer um evento especialíssimo: o beijo. E mais precisamente: o primeiro beijo.

Que acontece somente se cada um dos pretendentes abrir a guarda e confessar, perante o outro: “sim, eu te quero”. Porque o beijo tem o preço da humildade.

E o prêmio da intimidade. Os lábios que se desejaram – às vezes, tanto e tanto – enfim têm a felicidade de se conhecer. Sob o compasso da contagem regressiva para a vitória, o coração dispara, cheio de emoção. Então as bocas se congratulam: ”tão longe estavas, mas eu te alcancei”.

Ah, nada como se aproximar com muita atenção, bem devagar e degustar cada fração de alegria que esse momento oferece. Que bom sentir a vertigem do toque, as ondas de prazer que o afago gera.

Quando as bocas se querem, oh, bênção! São lábios que se sentem, se estimulam, se acariciam. Têm calor, têm umidade e intenção. Pronunciam palavras que não são ditas, mas também não são veladas.

E há os dentes. E línguas que deslizam, avançam, roçam. Dá pra tremer na base diante da sensação de explorar o outro e de se entregar ao reconhecimento afetuoso que ele faz de nós. É uma graça poder se dar e receber tal concessão de amor.

E abraçar esse mundo de carinho, afagar, sentir-lhe o calor e a tônica.

O primeiro beijo de um par é alimento para o corpo e para a alma. Oferece tanto que se basta. Por um momento, voltamos a nos sentir completos. É viagem, devaneio e verdade, é indescritível e inexplicável.

Infelizmente, acaba. Mas nunca mais seremos os mesmos.

Onides Bonaccorsi Queiroz

Anúncios

Deixe um comentário so far
Deixe um comentário



Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s



%d blogueiros gostam disto: