Verbo de ligação


a bagunça não compensa
17/07/2010, 20:13
Filed under: Prosa

Por que um lugar fica bagunçado?

Porque alguém bagunçou e não assumiu a responsabilidade de arrumá-lo. Alguém que quer ter o direito de usufruir desse espaço, mas não o dever de tomar conta dele.

Se rejeito o serviço de arrumar e limpar, safo-me do esforço de enfrentar – e eventualmente até de enxergar – a desarrumação que produzi e de revertê-la.

O problema é que, com isso, privo-me da satisfação de testemunhar o serviço de arrumação concluído. Perco a constatação da eficiência do meu empenho e a sensação harmonizadora de presenciar um ambiente asseado e ordenado e, por que não?, enfeitado e perfumado. Em casos crônicos de desordem, é possível até se perder o registro de que esse tipo de prazer existe.

E sem prazer… A vida empobrece. Desbota. Perde o viço, a graça.

Quem foge da atitude corajosa de encarar o resultado de suas ações permanece criança. As crianças sim devem ser poupadas, enquanto não puderem assumir responsabilidades. Mas com frequência se observa que crescem e são mantidas na imaturidade, envelhecem e não percebem quantos direitos poderiam ter adquirido se estivessem dispostas a assumir tarefas que lhes dizem respeito. Quem se recusa a crescer coloca sua atenção em pequenas distrações agradáveis que tornam a vida apenas suportável.

Então, ou somos encorajados a enfrentar desafios razoáveis desde pequenos, como arrumar uma gaveta, por exemplo, ou iremos de encontro, logo mais, a disfunções emocionais e materiais de proporções cada vez mais dramáticas.

Além disso, o ambiente bagunçado causa vergonha e culpa, devido à incapacidade de mantê-lo em condições dignas de uso. E vergonha e culpa pesam. São empecilhos para a paz e a alegria.

Por outro lado, se minhas responsabilidades estão assumidas, tenho o direito ao prazer de saber que sou capaz de funcionar. E mais: tenho também o direito ao prazer de escolher o que irei fazer no restante do tempo.

Se assumo momento a momento a manutenção de um espaço, não acumulo tarefas. Responder assim que possível ao meu dever requer tão menos do meu tempo, esforço e preocupação do que procrastiná-lo, que só posso chegar à conclusão de que seria uma ingenuidade não cumpri-lo o quanto antes. Ironicamente, só se descobre isso exercendo a negligência.

Mas a verdade é que ordenar nos obriga a refletir e decidir sobre certos aspectos da nossa vida – mais responsabilidade. Aspectos que se não estiverem muito claros nos trazem conflito e sofrimento.

Uma das questões recorrentes de todo ser humano adulto contemporâneo é: o espaço de que disponho pode abrigar todos os objetos que desejo possuir?

Diante dessa pergunta tão objetiva, para alguns arrumar pode ser uma ação simples e corriqueira, enquanto que, para outros, obriga a questionamentos dolorosos.  Porque exige a distinção entre nossas carências reais e nossas muletas emocionais. Leva a outra investigação crucial: preciso adquirir objetos, seja pelo bem em si, seja pelo ato de consumir, para compensar meus desequilíbrios pessoais? Esse exercício pode parecer severo demais para quem não quer, por exemplo, sentir a dor do abandono a que seu vazio interior remete. Mas é tão fundamental esse discernimento que pode transformar completamente a relação destrutiva que temos mantido com a nossa morada maior, o planeta.

À medida em que consigo identificar necessidades legítimas, evito desperdícios e prejuízos. Não faço gastos desnecessários de qualquer tipo de recurso, como dinheiro, tempo ou energia. E, com mais facilidade, disponho do que preciso, na hora em que preciso. “Onde está o par de meias cinza mesmo?” Ou mais ainda: “e a água, onde está?”

Ordenado, meu sistema funciona. Gira. Está em movimento. Não dá abrigo a energia estagnada: gordura.

Logo, fico mais leve. Para ser. Para ir e vir. E voar. Pois quando aprendo a usar as pernas, conquisto asas.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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