Verbo de ligação


muito prazer!
25/06/2010, 10:52
Filed under: Prosa

Eu acreditei no que me disseram. E acostumei-me a pensar em Deus como um senhor severo e punidor. Mal-humorado e intransigente.

O problema é que em cima de Deus havia um selo feito de crença, de verdade e de mentiras onde estava escrito: amor. O que me deixava confusa, sem que eu percebesse; eu achava que o desconforto era normal. Deus era assim mesmo, complicado. Inacessível.

Mas pior era eu, que não o compreendia. E que, por não compreendê-lo e me ressentir intimamente de sua dureza, que afinal era legítima expressão do tal amor, tornava-me certamente uma pessoa má. Uma pessoa torta.

Então me esforçava muito em ser perfeita para agradar esse Deus tão exigente. E me esforçava mais um pouco, mas ainda não era suficiente, aí me esforçava além.

Nunca estava bom. O Deus crítico sempre me reprovava, por mais que eu tivesse me superado, por mais que eu lhe entregasse meus esforços sinceros. Alguém, alguém muito melhor do que eu merecia sentir o amor de Deus. Talvez se eu conhecesse uma pessoa assim exata… Eu poderia aprender a ser melhor.

Esses valores não estavam muito claros em minha mente. Precisamente por isso, regiam a minha vida. E fizeram meu mundo escuro. Estreito. Árido.

Fiquei sem direito ao desejo. Sem esperança de ver meus anseios realizados. Encarnei o sacrifício vão de suportar existir.

O que me fez chegar a um veredicto: se a vida é isso, não tem sentido. Era uma questão de lógica: o Amor nos deu a vida para que sofrêssemos? Então Deus era um sádico! Não se tratava de um Deus de amor.

Explorei essa possibilidade durante muito tempo. Para ser franca, décadas. E só consegui agregar mais experiências de dor.

Mas, felizmente, minha consciência foi suprida com segurança suficiente para me permitir desconfiar da minha conclusão de estimação. Foi a sensação de estar absolutamente saturada de sofrimento que me incitou a buscar uma nova chance.

Assim cogitei: e se eu estiver enganada a respeito de Deus? E se torta não for eu – nem ele – mas a maneira como o tenho enxergado? Digamos que eu realmente e tão somente esteja equivocada… Digamos que eu acredite que Deus é bom. E já que é para imaginar, digamos que ele seja tão doce, compreensivo, amoroso, piedoso e redentor quanto eu preciso que ele seja? Ah, como eu preciso! Então vamos lá, digamos que ele seja exponencialmente melhor ao que eu possa imaginar?

Então eu ri muito da minha brincadeira. Parecia-me muito engraçada, porque era simples demais para ser verdade! E quanto mais simples eu verificava que era, mais verdadeira se revelava. E mais eu ria, principalmente quando me lembrava de tudo o que já havia passado ao ter nadado contra a corrente.  Eu não tinha pena de mim. Compreendia que precisara daquilo para chegar ali.

Por aventar a hipótese da generosidade, uma janela se abriu para mim. Luz e ar fresco puderam se aproximar de onde eu estava. Imensas barreiras pareciam ruir à minha frente.  Enfim o meu bônus: quem esgotou a descrença já não tem nada a perder.

Vi que Deus me olhava, atento. E me sorria, feliz por eu tê-Lo encontrado.

Agora sei que Deus ama a ousadia. Admira os atrevidos, porque estão em movimento. Porque seus corações batem com mais decisão. Logo chegarão a Ele. Se algo Lhe inspira cuidados é o conformismo dos mornos. Mesmo quando suas bocas falam de transformação.

Aprendi, oh, pérola da lucidez!, que Deus ama o gozo. A função única do sofrimento é, por oposição, preparar-nos para o prazer. É o prazer que dá significado à vida.

E foi assim que, por um voto de fé, exercício lúdico como uma aposta, a parte divina que dormia em mim despertou. E nesta fração de Si que sou eu, Deus pôde se conhecer.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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2 Comentários so far
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Seu texto me fez refletir: então eu, torto, descrente de tudo, emaranhado na complexidade das coisas (refutando-as todas) poderei encontrá-LO também? Como gostaria! Tenho pensado, aos 71, portanto mais recentemente, que sou apenas uma idéia dele, para aperfeiçoamento (na complexidade)de seu amor vasto e supremo.

Comentário por Elson Martins

“Yes is the answer”.
E por falar em Lennon…

Comentário por onidesqueiroz




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