Verbo de ligação


para os irmãos
28/05/2010, 11:06
Filed under: Prosa

Contou-me que eram crianças, ele e o irmão, tinham 9 e 10 anos. Que eram muito pobres e trabalhavam vendendo pequenas mercadorias, para ajudar a mãe, batalhadora e abandonada pelo marido. O pai conheciam e encontravam às vezes, ocasionalmente. Não lhes demonstrava grande afeto.

Mas naquele início de tarde, debaixo do sol inclemente que se derramava sobre as ruas, os irmãos estavam famintos e se lembraram desse pai.

Já o tinham visto num pequeno restaurante da vila onde moravam e foi para lá que se dirigiram, na esperança de que os ajudasse.

Caminharam muitas quadras, até que alcançaram o destino, exaustos e suados. E quando olharam para as mesas, que sorte!, lá estava o homem que buscavam.

Junto dele uma mulher, que não conheciam. Sorriam, falavam, almoçavam e tomavam cerveja.

Os meninos estancaram junto à porta e fixaram os olhos no pai. Que enfim percebeu-lhes a presença. E manteve-se indiferente, mantendo seu importante diálogo com a interlocutora. Mas a mulher notou os dois e disse:

− Aquelas crianças estão olhando pra cá. Você conhece?

Ele fechou a cara e respondeu, seco:

− Não.

Aí se virou para os filhos e gritou:

− Vão embora! Aqui não é lugar de mendigo.

E atirou-lhes uma moeda de cinquenta centavos.

Depois que o rapaz narrou tal passagem, não consegui ouvir mais nada do que dizia. E eu ainda sabia que, não bastasse uma, em seu currículo havia era uma coleção dessas histórias de terror.

Sim, por que o que mais pode sentir um inocente diante de tamanha frieza por parte daquele que mais deveria protegê-lo?

A cena dos meninos testemunhando o pai desconhecê-los e negligenciá-los fez minha alma tremer. Mas, talvez por me presumir a salvo pela segurança da minha infância satisfatória, não consegui sentir raiva muita daquele pai cruel, tão gritante era a sua insanidade, certamente fruto da ação destrutiva e contínua de gerações e gerações de adultos que também foram crianças brutalmente agredidas, sabe-se lá de que maneiras.

Só tomou conta de mim uma piedade dolorosa daqueles meninos maltratados, assustados, traídos, esfomeados e frágeis. Desejei muito entregar-lhes um sopro de amparo, o calor de uma atitude protetora.

Assim, deliberadamente, transportei-me para aquela ambientação, para o exato momento em que eram feridos. Cheguei e ninguém me viu. Aproximei-me lentamente deles, estrangulados em seu campo de dor. Consegui ver seus olhos abertos, incrédulos. Com o choque, sua respiração estava suspensa. Toquei em seu sentimento de derrota (“perdemos, perdemos bastante”) e autodesprezo (“se nosso próprio pai não gosta de nós, não devemos valer muito”).

Então lhes ofereci tudo o que eu podia. Meu coração rogou: um socorro, pelo amor de Deus! E a boca falou, tão somente:

− Eu sinto muito.

Sei que aquelas crianças ainda vivem dentro desses homens, o que faz do tempo uma circunstância tão relativa. E simplesmente porque um semelhante foi capaz de ser colocar, por um instante, na pele daqueles que sofreram, creio que, de certa forma, receberam algum conforto.

Algo que os ajude a manter a esperança de encontrar bondade no mundo. E a disposição de exercê-la.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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