Verbo de ligação


o tempero do acre
17/05/2010, 11:39
Filed under: Prosa

Sentada aqui sob as árvores, minha taurinidade se refestela: verde, sossego e sombra. Conforto na medida: roupa pouca, calçado nenhum. Estou em perfeita ruminação.

O pé meu resvala no da chicorinha, mato aromático de todos os quintais acreanos. Destaco uma folha, amasso. E fico sorvendo o odor. Hum, aprendi a gostar disto. Vai bem nos molhos.

Mas pensando bem… Pai do Céu, o que é que há comigo?

Comecei apreciando pimenta de cheiro. Vá lá, que é condimento superpalatável e tem originalíssimo sabor! Mas eu deveria ter percebido que o cenário ia adquirindo um contorno preocupante quando me tornei usuária e advogada do coentro, aquela erva que, até há pouco, dava-me a impressão de ter como único propósito existencial empestear tudo em que resvalasse.

Não para as cozinheiras do Acre. Lembro-me de ter perguntado a uma mulher por que o cheiro verde daqui não era composto de cebolinha e salsa, como no sul. Ela me disse: “ah, é porque o gosto da salsa pega em tudo e o coentro é ‘mair’ maneirinho!”

Coentro, maneiro??? Ora, essa, quase caí de costas! É rigorosamente o oposto do que pensamos os sulistas.

Mas, afinal, é um ponto de vista. Uma cultura. “De toda a região norte e nordeste”, bem me explicou Breno, meu cunhado recifense, gente-fina e todo prendado nas artes culinárias, um danado dum “cuzinheiro bõ da péxti”!

Bem, agora uma confidência. Não bastassem todas as transformações a que tenho assistido ocorrerem comigo, enfrento, de uns tempos pra cá, uma situação gastronômica ainda mais comprometedora: eis-me aqui, flertando com o – perdão! – jambu… Como isto foi me acontecer?

Só há uma hipótese: amor. Enfeitiçou-me a comida carinhosa das minhas amigas.

É, gosto deste lugar. E das amigas, do feijão, das estrelas e do chão.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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4 Comentários so far
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Alegrou-me o fato de alguem do sul ter reconhecido o sabor, a transcendencia mística do amor que existe no jambú… continuo apaixonado por ele…acho que eu tinha que nascer no Acre…
.rsrsrrs.

Comentário por Eduardo Henrique Romero Neto

E é claro que eu me lembrei de você quando mencionei o dito cujo!

Comentário por onidesqueiroz

Hahaha… Mas aqui em casa o inofensivo cheiro-verde venceu o impregnante coentro! Breno abandonou-o para agradar sua amada sulista! Ebaaaa…

Comentário por Adri

Belo, porque sensivel e honesto seu texto. Que bom que você escolheu vir morar no Acre!

Comentário por elson martins




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