Verbo de ligação


no clarão do escuro
16/04/2010, 15:49
Filed under: Prosa

Aquela noite, estava sozinha na igreja e, sem aviso, todas as luzes se apagaram.

Levei um enorme susto. Quase não acreditei no tamanho do breu onde me vi apanhada e julguei-me vítima de uma armadilha medonha. Que tipo de anfitrião é este?, critiquei.

Nunca antes passara pela minha cabeça que um templo poderia ser o lugar mais assustador do mundo para se ficar no escuro. Porque se na escuridão comum de uma casa, de um quarto, podem habitar os fantasmas mais prosaicos de gente meio-grande, algo diferente se processa no espaço exclusivamente destinado ao contato com o sagrado, cuja subjetividade e poder de alcance não raro conduzem ao questionamento entre o real e o irreal.

Pois assim ficamos nós ali: eu e o imponderável, absolutamente imponderável, eu diria naquele momento, quase silenciosamente. Não fosse o vento ruidoso que entrecortava minha respiração curtíssima e me fazia contrair ainda mais o corpo, também de frio.

Tudo em mim tremia, mas, imbuída de me salvar – já que “ninguém” parecia se importar com o meu apuro –, consegui detectar um fiozinho de coragem. Um pavio, quem sabe? Agarrei-me a ele e me pus a cantar, buscando a voz mais sincera, que foi crescendo, crescendo, firmou-se e me fortaleceu. Já não era um fiapo, era uma corda forte, resistente e familiar. Aos poucos, o empenho no canto preencheu toda minha atenção e eu fui me esquecendo de sentir medo. E, como se um foco começasse a brilhar, entendi que não precisava temer, porque não estava sozinha. Eu estava presente. Foi a minha voz, a voz da minha alma que veio me esclarecer. Assim, finalmente, fiquei à vontade comigo mesma.

Então, ao fim desse processo que não durou mais do que um minuto, as luzes se acenderam. E, então, eu e Deus – quem saberá delimitar as nossas fronteiras? – sorrimos.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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Existem caminhos que tem quer ser trilhados, mesmo que o princípio deles sejam tão longe. Caminhadas começam quando menos se espera, apesar de que muitas vezes o caminhar e a obrigação de proseguir é mais de quem nos acompanha.
Sim, meu pai manda em mim…minha mãe também manda em mim.
Para os dois, beijos carinhosamente fraternais.

Comentário por Eduardo Henrique Romero Neto




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