Verbo de ligação


quintal adentro, quintal afora
19/08/2009, 20:13
Filed under: Prosa | Tags: ,

Terra, árvore, flor, passarinho, cachorro, gato, criança, brincadeira, balanço, brinquedo, família, borboleta, fruta, erva medicinal, rede, conversa, horta, piquenique, beijo, festa, ar, amigo e muito mais, quintal é um encontro muito feliz: o lar indo pra fora e a natureza vindo pra dentro. A reunião de tudo o que há de melhor na vida.

Cochilar no quintal, buscar o sol no quintal, tomar brisa no quintal, cantar, desenhar, escrever, ler no quintal. E que hora boa a de ficar na janela, assistindo à chuva cair no quintal! Quintal é promessa, possibilidade e realização do prazer de viver.

Meu pai compreendia isso. Na década de 70, enquanto tantas famílias em Curitiba se mudavam para apartamentos, sempre fez questão de morar em casas, queria espaço para suas crianças e para si mesmo, menino do interior. Mamãe apoiava. E cultivava lindos jardins, onde não faltavam jasmineiros. Cheirava as flores, sorria e fechava os olhos, lembrando de sua Itália.

Infinitas, ainda tenho comigo as horas da minha infância que passei em quintais. O nosso era grande, com grama, arbustos e canteiro. Eu amava o aroma de orvalho das manhãs, ia cedo brincar na terra. Ali também cabiam bicicleta e bola. E tinha um terraço, onde eu me “apresentava”. Ora era Miss Brasil – só faltava me livrar daquela cicatriz no joelho, que, aliás, ainda está por aqui –, ora ginasta olímpica, ora uma grande cantora. Às vezes dividia o palco com minha irmãzinha. Já meu irmão se responsabilizava por eventuais vaias ou avacalhações em geral, quando tinha o gosto de surpreender um show ou desfile das meninas.

E havia também o quintal maranhense de minha doce avó, de quem herdei o nome e os olhos fundos. Era um terreno enorme e de chão de terra, cheio de árvores. Naquele reino das férias, eu brincava sozinha ou com as amiguinhas, fazia comida de terra e folhas, enquanto sentia, ai, delícia, o cheiro da lenha queimada vindo das cozinhas da vizinhança. Também procurava lá atrás, perto do muro, o mistério que as bananeiras insistiam em esconder, colhia laranja, comia, subia na goiabeira, que elegi como “minha” porque era confortável me abrigar em seus braços lisos. De lá via todo o terreiro, a rua do fundo, os telhados e os coqueiros, enquanto os pintinhos seguiam piando eternidade adentro. Em cima da árvore, eu tinha uma perspectiva de vida muito particular e privilegiada. Pensava, imaginava o futuro, sonhava.

Mais tarde, era lá que eu suspirava pelo meu primeiro amor: ah, se ele me desse a mão, ah, se ele dançasse comigo e se dissesse que gosta de mim, ah, se ele me namorasse… Tão lindo, tão príncipe, tão a mim prometido, meu Deus! Ainda lhe guardo ternura. O que eu não sabia era que todo o encanto que eu enxergava nele morava também no meu olhar.

“Saboroso é o nosso amor, fruta boa, coração é o quintal da pessoa”, que felizes os versos de “Fruta boa”, canção de Milton e Fernando Brant. E se Nana emprestar-lhe a voz de veludo escuro e ternura, então… Paro tudo pra ouvir. E lembrar que o quintal mora dentro de nós, é uma dimensão do ser. Que quintal é afeto, amizade, intimidade. E se o das casas tem alguns limites, o da alma é infinito. Quanto mais a gente anda, mais encontra aventuras, desafios, surpresas, paisagens e recantos também. É o quintal adentro.

O avesso também é verdadeiro. O quintal da casa reflete o coração. É a própria vida, a saúde. Sendo assim, pode-se transformar uma vida atuando num quintal. Importante é mantê-lo, limpá-lo, provê-lo, enfeitá-lo, desenvolvê-lo.

Por isso, parece-me lamentável a visão de um quintal abandonado. Ou cheio de entulho. É uma desonra, uma indelicadeza diante de tanta potencialidade da existência. Acontece, às vezes, de eu ir à casa de alguém e a pessoa me mostrar sua grande obra: arrancou as plantas, cimentou e ladrilhou o quintal, muito satisfeito com o “investimento”, porque “agora fica limpo”. Hã?

Como se pode explicar a alguém que folha não é sujeira? Calo, mas me concedo o direito de me divertir, imaginando que bom serviço uma picareta haveria de prestar ali, abrindo espaço para a vida – e para a água da chuva. A pessoa ainda enumerando as vantagens da reforma, e eu já com o projeto pronto de um legítimo quintal na cabeça.

Gosto tanto de quintal, mas tanto, que aceitei ter um bem grande: moro num sítio. Não importa que meu carro esteja quase sempre empoeirado ou enlameado por causa da longa estrada de terra que nos traz aqui, por asfalto algum eu trocaria este cheiro de mato, esta paisagem, o concerto dos pássaros logo cedo, o som dos sapos-martelo à noite, perto do lago, as estrelas cintilando dentro dos meus olhos… Quantas vezes, altas horas, brigo com as pálpebras pesando de sono porque não consigo deixar a visão de tanta beleza? E que alegria ver meu filho crescer assim livre, moleque, com aquele encardido nos pés que tanto briga com a bucha e o sabão, mas forte, faceiro e profundamente nutrido. Assim como meus pais fizeram comigo, e por esse tão significativo favor lhes trago mais uma flor de gratidão, não tenho notícia de legado maior que oferecer ao meu pequeno, com muito carinho, este quintal afora.

Agora, quem não tem, não fique triste, não, nem chateado comigo, que não falo para perturbar, mas para lhe despertar sonhos. No fundo, o que mais quero é que você descubra e conquiste um quintal maravilhoso.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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1 Comentário so far
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Ai, ai, ai…
Suas palavras me fizeram pensar no meu quintal.
Ele se resume, atualmente, a uma sacada enfeitada por uma deliciosa rede onde me deito e examino o céu com muita curiosidade. Os prédios ao redor me impedem de olhar para frente ou para os lados. Mas minha imaginação corre solta por esse pequeno e delicado quintal!!!!
Fico feliz em me ajudar a encontrar poesia nele também.
Beijos.

Comentário por Adri




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