Verbo de ligação


carta à amiga que se sente só
24/07/2009, 19:39
Filed under: Prosa | Tags: , ,

Então, aí está você. Em sua companhia.

Pensando bem, é tudo o que uma pessoa pode ter.

Pode ser bom, pode ser ruim. Pode ser uma companhia cheia, vívida, iluminada, calorosa. Pode ser sombria, nervosa, áspera, assustadora até. Ou pode ser um arranjo dessas tonalidades.

Como é a experiência de estar em sua própria companhia depende. Depende, antes de tudo, do quanto você tem se permitido, ao longo da vida, aceitá-la, respeitá-la, gostar dela e ser-lhe grata.

Infelizmente, ainda não aprendemos a trilhar esse caminho desde cedo. Não fomos ensinados a dar atenção, valor e acolhimento à nossa pessoa.

Assim despreparada, a maior parte dos humanos, ao mais leve rumor de ansiedade, precipita-se para o trabalho, intelecto, dinheiro, tv, relacionamentos, consumo, corpo, cultura, ressentimentos, computador, fanatismo, vida social, sexo, viagens, comida, drogas, competição, prestígio e tantas distrações quanto a mente possa engendrar. Muitos se empenham avidamente em saber tudo o que acontece no mundo, sem, no entanto, encarar o que se afigura dentro de si. Tantos falam em saúde, embora apartados da mais vaga idéia sobre onde de fato ela reside. É possível até mergulhar no estudo da alma humana e esquecer-se do estado da alma que está sob a própria guarda.

Por quê? Para não sentir. As dores, medos, raivas, perdas. Para não sentir, fugimos. Eis o vício-mor, pai de todos os outros. Ausentar-se da consciência é um ardil que se prepara no escuro da ignorância que habita em nós, apenas para impedir que sobrevenha o silêncio. Aquele temível silêncio que faz ressoar nossa emoção.

E desse modo, satisfeitos por sermos duros – “fortes”, cremos –  e conformados com a mediocridade do que vivemos, escoam-se os anos.

Até que, nos derradeiros dias, indagaremos: “que fiz?”. E, ao olharmos para a nossa jornada, o que poderíamos ter vivido de realmente significante se tivesse sido sempre insuportável estar a sós?

Por isso, são felizes os que se desesperam a tempo. Os que ficam saturados o bastante do sofrimento que o velho esconde-esconde traz. Porque têm a chance de compreender a tarefa de uma vida.

Admitindo enfim que não há saída na mentira, a gente se aproxima do nosso ser e consente em senti-lo, ainda que com desconforto. Dedicamos tanto tempo e esforço a nos desconhecer, sigamos agora serenos e sem pressa, mas certeiros, ao nosso encontro.

É preciso, com muito carinho e fé, aproximar-se desta criança que vaga, abandonada, em nossos recantos interiores, que carece tanto de nós e que muito já nos esperou. Então dizemos a este ser tão especial: “Voltei. Estou aqui para sempre. Está tudo bem. Não sei onde encontrar tudo o que você precisa, mas prometo que vou buscar, porque agora sei que só há sede porque existe água. Fique em paz. Pode contar comigo.”

Que glorioso é o dia em que, cá dentro, crianças inocentes e assustadas, recebemos nosso próprio colo e o zelo. Esta amizade preciosa e indispensável.

Agora podemos escutar aquele mesmo silêncio, que, só então descobrimos, premia os pacientes, evidenciando-lhes as saídas que o barulho não deixava escutar.

Para aquele que se lança à travessia dos vales da escuridão interior, a vida vai se tornando, dia a dia, mais primorosa, não obstante os sofrimentos. São de rara preciosidade as recompensas para quem assume a responsabilidade de cuidar de si. Aí o amor toma gosto, ganha corpo… E transborda. E vivifica todo o entorno.

O que de melhor tenho a lhe desejar é que esteja presente às aulas do Professor Tempo. Que transforme a solidão em plenitude. Que deixe despontar seu natal íntimo. Para que possa colher as flores perfumadas que estão esperando por você.

 Onides Bonaccorsi Queiroz

(Foto: internet)

(Foto: internet)

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3 Comentários so far
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Que lindo!!!!

Parabéns… bjs…

Breno

Comentário por Adri

Um manjar dos deuses para minha alma! Lindo!

Comentário por Arunii

quero palavras do verbo p/ passar p/ prosa

Comentário por elaine cristina ferreira crichi




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