Verbo de ligação


SAUDADES DE CASA
05/07/2009, 00:01
Filed under: Prosa | Tags: , ,

No meu coração há uma marca.

Ali em cima escrito: saudade. Um lamento profundo que carrego há tempo.

Companheira desde a infância. Tinha saudade dos anjos, e arrastava meu pesar sem saber explicá-lo a ninguém. Saudade do Menino Jesus e de sua doce mãe Maria. A época de Natal me fazia vibrar de entusiasmo, era a festa do Nascimento, com seus presépios e presentes. Mas me trazia também uma nota de melancolia, talvez porque pressentia o mundo tão distraído do sublime, o que só fazia aumentar minha saudade das coisas sagradas. E tinha mais a saudade do sagrado sem nome, que eu não sabia sagrado.

Agora tenho saudade de ser criança. Do colo da minha mãe, da presença determinada do meu pai, das crianças que eram meus irmãos, da terra preta e úmida do grande quintal de casa, do jardim de flores, do perfume delicado das rosas e dos cravos que a Nonna cultivava, disciplinada e satisfeita, de ver meus pezinhos gorduchos dentro dos sapatos-boneca brancos de furinhos onde um dia as formigas entraram e me arrancaram gritos, do ritual de me aproximar sorrateiramente da abertura do poço e, fascinada, constatar sua fundura, com a certeza, dentro de mim, de que não corria qualquer perigo, então “por que será que lá vem mamãe tão brava comigo?”, de descobrir, no meio da tarde, que a lua também aparece de dia e de me deitar no chão para viajar um pouco com ela, do amor à professora que naquele tempo ninguém via mal algum em chamar de “tia”, aliás eu ficava contentíssima em fazer de conta que era mesmo irmã da minha mãe, tão atenciosas comigo, ora, que sorte a minha, ter as duas por perto!

Mas acho que o que me dá saudades mesmo é a inocência. Porque a percepção dos inocentes é tão livre. É tão privilegiada. Sem medo, sem preconceito, sem maldade, sem remorso, sem ansiedade. Embora seja uma fé um tanto adormecida, pois não se conhece.

Mesmo assim, brilha tanto o azul do céu dos inocentes. É tão natural, para os puros, que as árvores lhes falem. E a música, então? É tátil, é visível, tem sabor. Os seres singelos têm tanta vitalidade, tanta disposição para viver. E o perdão é tão fácil, há infinita piedade e regozijo, é só começar de novo…

Ainda tenho fiapos dessas lembranças e os guardo a sete chaves sob minhas mais fervorosas orações, porque suponho que devam ser pistas para o meu caminho de volta para casa.

Porque, na saída de lá, a gente cresce e vai ficando satisfeito que não é mais “bobo” como antes. Vai deixando o mundo encantado da verdade como se estivesse sendo premiado, promovido a adulto, “até que enfim sarei de ser criança!” Sem nem desconfiar do quanto irá pesar a nova identidade.

E aí, quanto chão pela frente, até atinar no que perdeu? Quanto sofrimento, meu Deus, para admitir refazer os cálculos? Que coragem e empenho para ser capaz de avaliar a fortuna que, desavisado, deixou pra trás…

Então a saudade vira um quase-remorso. Mas como se arrepender se não houve escolha?

Ainda assim dói. Ver-me apartada do que amo torna-se um sentimento que me revolta, indigna e me faz esbravejar, ainda que de boca fechada. Aí faço da vida um esmurrar a uma grande porta que insiste em não se abrir, não interessa quão grave seja o meu protesto.

A espessa porta me humilha quando bato os calcanhares no chão e, inflada de razões e argumentos, digo: eu quero.

Sólida porta quando me ensina que não escolho, mas sou escolhida. E que meu serviço todo, longe de desejar, é me tornar disponível.

E quando enfim, prostrada sob a sombra da porta, reconheço que na batalha contra o imponderável sou sempre perdedora, faço apenas lamentar a minha carência humana, que é o que de fato me fere, e choro.

Lágrimas sinceras que me desafogam, que se derramam sobre minhas feridas e aliviam o ardor, que me limpam, me curam e nutrem de esperanças as minhas fissuras.

É bem cansada, mas de olhos lavados, que compreendo que a mansidão é a chave desta cela onde vivo. Liberto-me tanto quanto a aceito.

E, quando caio de saudade, é sempre por um voto de fé que me levanto. Não tenho provas científicas. Não tenho garantias. Apenas escolhi acreditar. Então confio e lembro que tenho guia. Há uma estrela brilhante sobre minha fronte porque o amor me deu. Eu vi e eu quis ver que o amor me ama. O amor me trouxe, o amor me acompanha e o amor, que também ficou, me quer de volta. E eu volto, e quanto mais eu volto, mais eu amo o amor. Por isso, não volto por sacrifício, mas por prazer.

Nesta jornada, minha alma aprende a pronunciar as ternas palavras que agradam ao meu Bem-amado. Elevo-Lhe canções e cuido que minha voz Lhe seja afável.

Mesmo porque minha voz desvenda de mim muito mais do que sei, e assim me sou apresentada. Ao saber quem sou, gratifico-me e conquisto um lugar no mundo. Que mundo? O da consciência. Então verifico que pertenço àquilo que desejo e me torno o próprio objeto da minha saudade. Em mim emerge a pergunta e em mim encontro a resposta.

Também danço, porque descubro alegria em meu corpo. E, dançando, entendo que sou livre. Livre para quê? Para amar.

Respiro, relaxo, e as cintas se afrouxam. O peito inspira com amplidão e vou-me lembrando do cheiro lá de casa. A casa do alto do meu coração.

Tão antiga e sempre nova minha eterna casa. Casa grande, limpa, nobre. Casa plena de presença, ternura e liberdade. Cheia de mimos e de boas surpresas. Ah, é infinitamente bela e brilhante. É povoada de anjos, sim, e de indizíveis cores e luzes. E há som, música celeste em minha casa.

Por isso lhe tenho saudades. E sei que esse é o pulso que me move. Faz-me acordar, impele minhas pernas, suscita-me curiosidades, transborda-me de coragem, lança-me em aventuras, lapida meu entendimento, fixa minha memória, transforma meu olhar.

A saudade, enquanto lateja, lembra-me de que sou herdeira do céu.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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3 Comentários so far
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Olá!!

Vc está no Acre?
Vai ficar até quando?

Beijo!

Comentário por Ronaldo

Linda,
Um só livro não poderia revelar seu belíssimo dom de proferir palavras encantadores, descrever situações, pessoas ou objetos de forma inacreditavelmente pura, real e tocante. Sim, toca o coração… Profundamente…
Agradeço a Deus por me abençoar ao me dar uma infância (saudade de casa também…)ao lado de seres tão queridos e especiais.
E obrigada à você por presentear seus leitores com seus textos!!!!!
Parabéns.
Amor, sempre amor… Adri.

Comentário por Adri

Oi, mana!
Que bom receber-te aqui, parte da minha infância, da minha vida e do meu amor! Obrigada pelas palavras delicadas. Um beijo,
Gor…, ops, Onides.

Comentário por onidesqueiroz




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