Verbo de ligação


Reveses e glória de um jogador
09/09/2017, 20:27
Filed under: Prosa

Quanto tempo a gente leva pra aprender o procedimento adequado?

Será que avanço? Espero? Devolvo? Suporto? Digo? Ou calo? Reclamo ou digiro? Será que resisto, ou extravaso? Será que duvido? Ou confio? Arrisco? Evito? Mantenho? Ou esqueço? Sustento ou desmonto?

Ah, quantas vezes a gente se aflige em dilemas, quantas vezes maldiz o que sucede, quantas vezes lamenta o que não fez e outras tantas se rói de arrependimento por ter feito?

E se pergunta, enquanto arde: quanto sofrimento cabe na bagagem de cada um?

E é dia após dia, conformado em não saber, comprometido em persistir e atentar, que a gente, humilde, segue.

Então há um momento em que a vista começa a clarear, os fatos ganham novo sentido e o mosaico da vida se revela, gradativamente.

É quando, sem aviso, vem a prova.

Aí, com a resistência que consolidou durante os temporais, com a serenidade de quem sobreviveu a tantas conturbações, com a instrução que obteve ao constatar cada passo em falso, a gente se descobre confiante, destrinchando a equação.

E não há influência, nem palavra, nem dogma, nem ameaça, nem sedução, nem chantagem, nem gesto algum que faça a gente hesitar ou desviar-se do discernimento que se permitiu construir ao longo das experiências.

Porque consciência é o grande trunfo humano.

Então – ah, que sabor inconfundível… –, no arremate, a visão é ampla, a técnica é apurada, a jogada é precisa e o chute é certo.

Gol.

Onides Bonaccorsi Queiroz

bola na rede 3

(Foto: internet)

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A arte de habitar
01/08/2017, 15:27
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Tenho um caso de amor com a minha casa. Me dá alegria ali despertar, tudo tão em paz. Cedo abro as janelas, que venha o perfumado frescor da manhã e o canto dos pássaros tomar conta de todo o meu dentro.

O segundo aroma, ansiado e imperioso, sou eu que preparo: café. Bom na solitude. Bom no encontro. Evoca aconchego e preenche todos os cômodos.

Em cada porção do espaço de morar está tudo declarado. No que é visível ou não, os valores, os desejos, as dores, as crenças, os vazios, as vitórias, as pretensões, as possibilidades, os temores, os afetos. Casa é a foto psíquica de quem vive nela.

Parecem-me entediantes vivendas meramente utilitárias, previsíveis, do modelo “aqui eu sento”, “aqui eu cozinho”, “aqui eu durmo”. Casas interessantes contam histórias. O que demanda que o dono assimile a própria identidade, conheça seus trunfos e fragilidades, saiba de onde veio, onde está e vislumbre perspectivas futuras, planos e sonhos.

O que desejo viver? O que gosto de fazer? Quem eu quero perto de mim? É fundamental refletir sobre isso. Quanto mais estampa esses anseios, mais força e presença o lar ganha.

Pois não há quem transforme qualquer lugar em um encanto? Não há pessoas que sabem produzir beleza e harmonia com os recursos que têm à mão, ainda que escassos? Um amigo me contou que conheceu um sobrado simples onde, além da escada, havia um escorregador para as crianças descerem ao pavimento inferior. Um presente de pais para filhos e sinal inequívoco de que nessa família reinava generosidade, humor e imaginação.

Por outro lado, não há quem viva em domicílios tão sem alma, sejam palácios ou barracos, que a gente tem vontade de sair correndo? Porque o que conta é a riqueza do coração! E penso mesmo que seja do feminino, como aspecto nutridor da vida manifesto no homem ou na mulher, a capacidade de animar a própria habitação.

É saudável que a casa seja dinâmica. Que seja periodicamente repensada, rearranjada, que receba detalhes e que outros sejam retirados. Plantas e animais, do lado de dentro ou de fora, vivificam o espaço e são boa companhia.

E, por falar em convivência, acolher e confraternizar são práticas profícuas para o ambiente caseiro e para todos os envolvidos. O tempo que se passa perto de amigos fertiliza a vida. Mas não se abre a porta a pessoas cuja frequência ou comportamento não se aprecia. Cada um é guardião da sua morada e ali só deve permitir o que deseja.

Silêncio, tanto quanto possível, é fundamental. Mas música é tudo de bom. Porque há músicas que nos fazem sentir em casa, às vezes uma casa familiar, outras, uma casa adorável que a gente havia esquecido que vivia em nós.

E, assim, em sinal de gratidão por este teto sobre a minha cabeça, pelas paredes que abrigam minha intimidade e por este temporário chão que recebe meus passos, o centro da minha sala permanece sem móveis. Para que eu possa lembrar, a qualquer momento, que a vida é pra ser celebrada e, enquanto eu estiver de pé, sempre é tempo de dançar.

Onides Bonaccorsi Queiroz

casa de cora coralina

Quarto da poeta Cora Coralina (1889-1985), no Museu Casa de Cora Coralina, em Goiás Velho-GO (Foto: Eduardo Vessoni)



O convite

 

Não me interessa o que você faz para viver.

Quero saber o que você deseja ardorosamente

e se você se atreve a sonhar

em encontrar os anseios do seu coração.

Não me interessa quantos anos você tem.

Quero saber se você se arriscaria

a parecer tolo por amor ao seu sonho,

pela aventura de estar vivo.

Não me interessa que planetas

estão em quadratura com a sua lua.

Quero saber se você tocou o âmago da sua própria dor,

se você se tornou mais aberto por causa das traições da vida

ou se tornou murcho e fechado

por medo de futuros sofrimentos.

Quero saber se você pode sentar-se com a dor,

minha ou sua, sem mover-se para escondê-la,

tentar diminui-la ou tratá-la.

Quero saber se você pode conviver com a alegria,

minha ou sua, se você pode dançar loucamente,

e deixar o êxtase tomar conta de você, dos pés à cabeça,

sem advertir para sermos cuidadosos, realistas,

ou lembrar as limitações de sermos humanos.

Não me interessa

se a história que você está contando é verdadeira.

Quero saber se você pode desapontar alguém

para ser verdadeiro consigo mesmo.

Se você pode suportar a acusação de traição

e não trair a sua própria alma,

ou ser infiel e, mesmo assim, ser digno de confiança.

Quero saber se você é capaz de enxergar a Beleza,

ainda que o cotidiano não seja bonito,

e fazer dela a fonte da sua vida.

Quero saber se você é capaz de conviver com o fracasso,

meu e seu, e ainda assim pôr-se de pé na beira do lago

e gritar para o reflexo prateado da lua cheia: “Sim!”.

Não me interessa saber onde você mora

ou quanto dinheiro você tem.

Quero saber se, após uma noite de tristeza e desespero,

exausto e ferido até os ossos,

é capaz de fazer o que precisa ser feito

para alimentar seus filhos.

Não me interessa quem você conhece

ou como chegou até aqui.

Quero saber se vai permanecer

no centro do fogo comigo sem recuar.

Não me interessa onde, o que ou com quem estudou.

Quero saber o que o sustenta, no seu íntimo,

quando tudo mais desmorona.

Quero saber se é capaz de ficar só consigo mesmo

e se nos momentos vazios realmente gosta da sua companhia.

 

Oriah Mountain Dreamer, escritora canadense

(Do original “The Invitation“, 1999)

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(Ilustração: Alexandra Eldridge)



A irretocável autoestima de Dorival Caymmi

“Eu vou pra Maracangalha, eu vou”, anuncia, radiante, o nosso grande Dorival.

“Eu vou de uniforme branco, eu vou, eu vou de chapéu de palha, eu vou”, continua. Vestido com tal elegância e leveza, a bordo da festiva canção, além do generoso sorriso, não é difícil supor que esteja se dirigindo a um lugar muito estimado.

E se é tão bom, será também boa ideia chamar alguém especial para ir junto. Então ele avisa: “Eu vou convidar Anália, eu vou”. Codinome encomendado para rimar com Maracangalha, Anália é o nome da mulher, namorada, amante ou companheira. Enfim, aquela com quem ele quer compartilhar o prazer dessa jornada.

Nesse ponto, onde se insere o refrão, letra e melodia experimentam uma inflexão, indicando, ainda com alegria, mas uma alegria diferente da anterior, que ele está ciente da possibilidade de que, por um motivo qualquer, Anália não queira ou não possa ir. Nesse caso, já sabe o que fará: “Se Anália não quiser ir, eu vou só (…) Eu vou só, eu vou só, sem Anália, mas eu vou”.

Simples e espontânea, irrompe essa flor filosófica na canção, o que a diferencia da grande maré de apologia à dependência emocional que inunda a música popular. Expedidos os devidos alvarás para a deliciosa insanidade dos recém-apaixonados – que ninguém é de ferro, aqui não há “eu só vou se você for”, “só tem graça se você estiver junto”, ou “eu não existo sem você” – mil perdões, Vinícius!

Como personagem da própria obra, Caymmi existe sim e, ao contrário de muitos, provavelmente da maioria, sabe disso. Sabe que está presente e vivo. Sabe que é um boa-praça, sente-se bem consigo e com a vida que tem. Confia na sua capacidade de desfrute e se entende merecedor de degustar o que lhe dá prazer. Então, a companhia da amada é obviamente bem-vinda e até desejada, mas não é condicionante para o seu saboroso passeio.

Seja como for, feliz da vida, ele vai a Maracangalha! Que, a propósito, é uma localidade da Bahia próxima de Salvador.

Onides Bonaccorsi Queiroz

(Ouça aqui Maracangalha, com Tom Jobim e Danilo Caymmi)

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O cantor, compositor, violonista, poeta e pintor Dorival Caymmi (1914-2008) (Foto: internet)

 



Com o amor que eu um dia deixei pra você

De novo andaram de mãos dadas pela rua. O fim de tarde mais que gentil, as árvores antigas no largo passeio da avenida, o canto doce dos passarinhos ao se recolherem, enfim o mundo se abria para que transitassem.

À mesa, face a face pronunciaram todas as sílabas do passado difícil, de paixão muita e desencontros demais.

Aludiram às dores comuns e às particulares, não sem lágrimas. Confessaram motivos. Trocaram peças. Revelaram segredos.

Vinte anos transcorridos, era mesmo deles a canção buarquiana, que lhes trouxera tanto encanto quanto angústia: “Não se afobe não, que nada é pra já…”

Almas despidas, surgiram acolhedores e, solidários, admitiram a legitimidade humana do que se ofereceram.

Então constataram preciosidades: por tanto tempo distantes, e ainda eram íntimos. Tantas inquietudes se foram, e haviam se tornado mais amáveis.

Tudo o que parecera tão emergente agora descansava nas prateleiras do tempo. Enquanto eles, por sua vez, podiam descansar um no abraço do outro. Com a alegria dos moços e a calma dos velhos. Que tinham todas as idades.

Mais do que nunca, foram namorados.

Onides Bonaccorsi Queiroz

(Ouça aqui Futuros Amantes, de Chico Buarque)

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Da escuta aos passantes
23/05/2017, 15:08
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Se quiseres compreender algo da alma humana, por um momento fecha os olhos. Assim perceberás melhor. Em silêncio à beira da estrada, ouve os passos de quantos puder. Escuta o que diz cada um.

Verificarás que apressado é o andar dos trabalhadores, homens e mulheres na suada busca do pão. Testemunha os seus pensamentos, tantas vezes aflitos e fatigados, ao defender a sobrevivência sua e dos seus.

E em se lembrando das famílias, não deixes de ouvir o passeio das crianças, que, tão leves, gostam mesmo é de ir aos pulos. Regozija-te com tanta vida, tanta alegria que permeia esse vívido trotar, pleno de fé, confiança e imaginação. Instrui-te com os pequenos mestres da liberdade.

Mas, tarefa das mais desafiadoras, ouve também as passadas de quem caminha com dureza e de quem causa sofrimento aos demais. Pressente a dor surda de quem é prisioneiro do medo. E lembra-te de que secura emocional e autoritarismo não são sinais de força, mas de fragilidade.

É prudente, entretanto, não julgar os seus portadores, para que a vida não te coloque em embaraço equivalente e não te vejas obrigado a descobrir que muitas vezes não é tão fácil superar certos obstáculos do caminho. Observa sempre e confere, adiante, a colheita desses, apenas para constatar como é que não se faz.

Ah, reserva sempre um momento para ouvir os passos visionários dos artistas, dos poetas do cotidiano. E lhes sê grato, porque, rasgados pelos sofrimentos, eles romperam fronteiras e aprenderam a voar, capturando frequências que alimentam os sonhos de todos.

E não deixes de registrar o esforço da marcha vacilante dos anciãos, nem de respeitar a sua lentidão; reverencia a história que carregam, muitas vezes penosamente. Compadece-te pelo peso do corpo do qual a vitalidade se vai retirando, e também o desafio extremo da consciência que se aproxima da hora de despedir-se deste mundo.

Ao cultivar a escuta aos passantes, deixa germinar em ti a solidariedade também por aqueles que não podem andar. Que, ainda assim, possam cumprir a travessia que lhes cabe.

Finalmente, mas também por princípio, para gostar de viver e ser feliz, escuta os próprios passos. E cuida que esse caminhar acompanhe as batidas do teu coração, porque ele é o senhor de todo ritmo.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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(Katie M. Berggren – óleo sobre tela)



Amor de mãe – contação de história