Verbo de ligação


A irretocável autoestima de Dorival Caymmi

“Eu vou pra Maracangalha, eu vou”, anuncia, radiante, o nosso grande Dorival.

“Eu vou de uniforme branco, eu vou, eu vou de chapéu de palha, eu vou”, continua. Vestido com tal elegância e leveza, a bordo da festiva canção, além do generoso sorriso, não é difícil supor que esteja se dirigindo a um lugar muito estimado.

E se é tão bom, será também boa ideia chamar alguém especial para ir junto. Então ele avisa: “Eu vou convidar Anália, eu vou”. Codinome encomendado para rimar com Maracangalha, Anália é o nome da mulher, namorada, amante ou companheira. Enfim, aquela com quem ele quer compartilhar o prazer dessa jornada.

Nesse ponto, onde se insere o refrão, letra e melodia experimentam uma inflexão, indicando, ainda com alegria, mas uma alegria diferente da anterior, que ele está ciente da possibilidade de que, por um motivo qualquer, Anália não queira ou não possa ir. Nesse caso, já sabe o que fará: “Se Anália não quiser ir, eu vou só (…) Eu vou só, eu vou só, sem Anália, mas eu vou”.

Simples e espontânea, irrompe essa flor filosófica na canção, o que a diferencia da grande maré de apologia à dependência emocional que inunda a música popular. Expedidos os devidos alvarás para a deliciosa insanidade dos recém-apaixonados – que ninguém é de ferro, aqui não há “eu só vou se você for”, “só tem graça se você estiver junto”, ou “eu não existo sem você” – mil perdões, Vinícius!

Como personagem da própria obra, Caymmi existe sim e, ao contrário de muitos, provavelmente da maioria, sabe disso. Sabe que está presente e vivo. Sabe que é um boa-praça, sente-se bem consigo e com a vida que tem. Confia na sua capacidade de desfrute e se entende merecedor de degustar o que lhe dá prazer. Então, a companhia da amada é obviamente bem-vinda e até desejada, mas não é condicionante para o seu saboroso passeio.

Seja como for, feliz da vida, ele vai a Maracangalha! Que, a propósito, é uma localidade da Bahia próxima de Salvador.

Onides Bonaccorsi Queiroz

(Ouça aqui Maracangalha, com Tom Jobim e Danilo Caymmi)

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O cantor, compositor, violonista, poeta e pintor Dorival Caymmi (1914-2008) (Foto: internet)

 



Com o amor que eu um dia deixei pra você

De novo andaram de mãos dadas pela rua. O fim de tarde mais que gentil, as árvores antigas no largo passeio da avenida, o canto doce dos passarinhos ao se recolherem, enfim o mundo se abria para que transitassem.

À mesa, face a face pronunciaram todas as sílabas do passado difícil, de paixão muita e desencontros demais.

Aludiram às dores comuns e às particulares, não sem lágrimas. Confessaram motivos. Trocaram peças. Revelaram segredos.

Vinte anos transcorridos, era mesmo deles a canção buarquiana, que lhes trouxera tanto encanto quanto angústia: “Não se afobe não, que nada é pra já…”

Almas despidas, surgiram acolhedores e, solidários, admitiram a legitimidade humana do que se ofereceram.

Então constataram preciosidades: por tanto tempo distantes, e ainda eram íntimos. Tantas inquietudes se foram, e haviam se tornado mais amáveis.

Tudo o que parecera tão emergente agora descansava nas prateleiras do tempo. Enquanto eles, por sua vez, podiam descansar um no abraço do outro. Com a alegria dos moços e a calma dos velhos. Que tinham todas as idades.

Mais do que nunca, foram namorados.

Onides Bonaccorsi Queiroz

(Ouça aqui Futuros Amantes, de Chico Buarque)

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Da escuta aos passantes
23/05/2017, 15:08
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Se quiseres compreender algo da alma humana, por um momento fecha os olhos. Assim perceberás melhor. Em silêncio à beira da estrada, ouve os passos de quantos puder. Escuta o que diz cada um.

Verificarás que apressado é o andar dos trabalhadores, homens e mulheres na suada busca do pão. Testemunha os seus pensamentos, tantas vezes aflitos e fatigados, ao defender a sobrevivência sua e dos seus.

E em se lembrando das famílias, não deixes de ouvir o passeio das crianças, que, tão leves, gostam mesmo é de ir aos pulos. Regozija-te com tanta vida, tanta alegria que permeia esse vívido trotar, pleno de fé, confiança e imaginação. Instrui-te com os pequenos mestres da liberdade.

Mas, tarefa das mais desafiadoras, ouve também as passadas de quem caminha com dureza e de quem causa sofrimento aos demais. Pressente a dor surda de quem é prisioneiro do medo. E lembra-te de que secura emocional e autoritarismo não são sinais de força, mas de fragilidade.

É prudente, entretanto, não julgar os seus portadores, para que a vida não te coloque em embaraço equivalente e não te vejas obrigado a descobrir que muitas vezes não é tão fácil superar certos obstáculos do caminho. Observa sempre e confere, adiante, a colheita desses, apenas para constatar como é que não se faz.

Ah, reserva sempre um momento para ouvir os passos visionários dos artistas, dos poetas do cotidiano. E lhes sê grato, porque, rasgados pelos sofrimentos, eles romperam fronteiras e aprenderam a voar, capturando frequências que alimentam os sonhos de todos.

E não deixes de registrar o esforço da marcha vacilante dos anciãos, nem de respeitar a sua lentidão; reverencia a história que carregam, muitas vezes penosamente. Compadece-te pelo peso do corpo do qual a vitalidade se vai retirando, e também o desafio extremo da consciência que se aproxima da hora de despedir-se deste mundo.

Ao cultivar a escuta aos passantes, deixa germinar em ti a solidariedade também por aqueles que não podem andar. Que, ainda assim, possam cumprir a travessia que lhes cabe.

Finalmente, mas também por princípio, para gostar de viver e ser feliz, escuta os próprios passos. E cuida que esse caminhar acompanhe as batidas do teu coração, porque ele é o senhor de todo ritmo.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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(Katie M. Berggren – óleo sobre tela)



Amor de mãe – contação de história

Consultório sentimental
23/04/2017, 21:44
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Então a paixão vai ficando desconfortável.

Aquele sentimento que já foi de alegria, arejamento, descoberta e bem-querer se torna sombrio, opressivo, monótono, triste e ressentido.

Logo, inconveniente. Pior que estéril, venenoso.

Mas o enamorado irredutível, tenha em algum momento sido bem sucedido ou não em seu intento de buscar reciprocidade, nega-se a abrir mão da paixão que sofregamente carrega.

Meu amigo mineirinho filosofa sobre tal comportamento com lentes de humor: “Ocê já botô reparo qui tem uns tipo qui num é paxonado, é incutido?”

Verdade. Por quê, haverão de perguntar ao portador da dolorosa afeição, se ela lhe faz tão mal?

Para responder, ele elencará razões às dezenas, especialmente para se manter no papel que escolheu executar. Mas é bem provável que nem a si permita averiguar suas motivações mais profundas, que de fato o prendem.

Embora o acometimento de paixão em si seja legítimo, belo e respeitável, o apego a ela tem outro propósito e origem. Que nunca se localiza fora do apaixonado.

Antes, nos seus registros primeiros de vínculos afetivos, acolhedores ou hostis, nas primeiras histórias vivenciadas, nas suas carências, medos e desejos.

É, portanto, na harmonização desse campo que o candidato à emancipação emocional deve projetar seu foco, em vez de ficar atribuindo ao outro a culpa pela sua infelicidade.

Assim, permitir que a paixão se vá quando deixou de ser prazenteira é uma decisão adulta, que exige entendimento, disposição e coragem.

Porque se é verdade que ela coloca lentes cor-de-rosa entre a nossa percepção e o mundo que nos cerca, abrir mão desse anteparo é certamente assustador.

É ser lançado de novo à vida comum, àquela senda que já se mostrava tão desprovida de atrativos.

O apaixonado contumaz não quer voltar a esse lugar, que lhe parece de uma crueza e de um naturalismo insuportáveis. Por isso resiste.

Entretanto, esse singelo âmbito que tanto se evita é a nossa verdadeira casa. Somos nós mesmos. É a nossa vida, nossa instância de direito – por tempo determinado: eis um detalhe a não ser esquecido.

Ser humano é aceitar a responsabilidade de tornar o universo pessoal significativo, fecundo e… apaixonante!

Serviço para a vida inteira. Mas é bem remunerado.

Palavra de quem já se apaixonou muito, às vezes se deu bem, às vezes com os burros n’água; de quem já foi alvo de paixão e às vezes pôde retribuir, às vezes não; de quem volta e meia empresta seus ouvidos para confidências de gente apaixonada e também observa a paixão alheia; de quem já se perdeu na paixão, mas continua buscando se encontrar.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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(Foto: Adriana Queiroz)



A serpente da qual se deve conhecer o nome
16/03/2017, 23:04
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Eis que a novidade se apresenta. Entra pelos olhos, pelos ouvidos, pelos poros. Percorre todas as vias internas, contagia as células.

Então emerge o mal-estar. Uma sensação que parece ficar flutuando na semiconsciência, nauseante. E o desejo de não pensar mais no ocorrido.

Mas a lembrança retorna à mente. Envolta em raiva: o ressentimento de que aquilo tenha acontecido. Porque incomoda. Na verdade, raspa em algo muito suscetível que está dentro: um desejo, um sonho, uma cobiça, um anseio. E fere.

Como fere aquela específica felicidade do outro quando a mesma expectativa em nós se encontra frustrada! E talvez estivesse esquecida. Mas foi despertada pelo evento. Ou não, esteve todo o tempo ali, latejando insatisfação.

É a serpente da inveja.

Demonizada pela maior parte das pessoas, como se não fizesse parte da experiência humana. Temida e negada quase sempre, por projetar, no âmbito das crenças do ilusório senso comum, o seu portador a um constrangedor patamar de inferioridade moral.

É assim incompreendida que a inveja se perpetua. Se as valiosas informações que traz a bordo são rejeitadas, sua virulência – crescente – intoxica quem a carrega, com risco de projetar efeitos nocivos também sobre terceiros.

Remédio? Existe. Mas dá trabalho. Requer coragem, de olhar para dentro. Requer honestidade e humildade, para admitir a própria sombra.

E requer o contraponto, de identificar o que em nós é forte e fecundo. Requer, ainda, discernimento, para saber a diferença entre o desejável e o necessário. E requer também disposição, na busca do que pode de fato nos acrescentar plenitude.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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(Foto: internet)

 



Aracy: a mulher a quem Guimarães Rosa dedicou o Grande Sertão
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Aracy Moebius de Carvalho foi mulher de Guimarães Rosa durante 30 anos (Foto: Álbum de família)

“A Aracy, minha mulher, Ara, pertence este livro”.

Quem seria essa que recebeu de um homem da estatura de João Guimarães Rosa, um dos maiores escritores da Língua Portuguesa, a honra e o afeto da dedicatória naquela que viria a ser sua obra-prima, “Grande Sertão: Veredas”?

Aracy Moebius de Carvalho nasceu em Rio Negro, no Paraná. Filha de pai português e mãe alemã, em 1934, aos 26 anos, era desquitada – um escândalo para a época. Fluente em várias línguas (português, inglês, francês e alemão), logo embarcou, com seu filho Eduardo, de cinco anos, num navio para a Alemanha.

Em Hamburgo, tornou-se chefe da seção de passaportes do consulado brasileiro, onde, em 1938 conheceu o escritor, que era cônsul adjunto. Casaram-se em 1940.

Com o nazismo em plena ascensão, viu os judeus serem expulsos do funcionalismo público, banidos das escolas e universidades e perderem seus direitos e propriedades. Observou também o antissemitismo encampado pelo governo Vargas.

Diante desse cenário, decidiu burlar, em sua função, a Circular Secreta 1.127, orientação diplomática que restringia a entrada de semitas no Brasil. Aracy teria, na administração pública de Hamburgo, cúmplices para conseguir falsos atestados de residência para que judeus de outras regiões pudessem pedir vistos na cidade, obtinha passaportes sem o “J” vermelho que os identificava, misturava os pedidos de vistos de judeus a outros documentos para que o cônsul-geral, Joaquim Antônio de Souza Ribeiro, assinasse sem perceber e chegou a transportar alguns perseguidos no carro diplomático. “Joãozinho” – como ela chamava Guimarães Rosa – sabia e aprovava sua atitude.

Contemporâneos relatam que ela era tão bela e atraente quanto determinada e indócil. Certa vez, numa fronteira germânica, um policial queria revistá-la. Aracy lhe aplicou uma descompostura tão enfurecida que o fez recuar. Ela, então, atravessou calmamente a divisa com um judeu no porta-malas do carro. Utilizando-se desses procedimentos e recusando qualquer tipo de gratificação financeira, calcula-se que livrou dezenas de famílias da prisão e da morte.

Aracy, Rosa e Eduardo permaneceram na Alemanha até 1942, quando o governo brasileiro rompeu relações diplomáticas com aquele país e passou a apoiar os Aliados da Segunda Guerra Mundial. Antes do retorno ao Brasil, tendo sido investigados por autoridades alemãs e brasileiras, ficaram quatro meses sob custódia da Gestapo, até que foram trocados por diplomatas alemães.

Como ambos eram desquitados, só oficializaram a união na Embaixada do México, em 1947, no Rio de Janeiro, cidade onde foram morar. Companheira de três décadas do escritor – Rosa morreria em 1967 –, Aracy também participou empenhadamente das criações literárias do marido. E, depois de viúva, não tornou a se casar.

Em 8 de julho de 1982, recebeu o título de “Justa entre as Nações”, conferido pelo Museu do Holocausto, em Jerusalém, a não-judeus que ajudaram judeus a escapar do nazismo. Foi a única mulher e a única brasileira que recebeu a condecoração. Conhecida como o “Anjo de Hamburgo”, recebeu homenagens também no Museu do Holocausto de Washington.

No Brasil, Aracy auxiliou artistas e intelectuais durante o regime militar. Em 1968, quando “Pra não dizer que não falei das flores” se tornou um hino contra a ditadura, ela escondeu Geraldo Vandré, autor e intérprete da canção, no seu apartamento em Copacabana, num prédio onde moravam diversos oficiais.

Nos últimos anos de sua vida, enfrentou a doença de Alzheimer, e faleceu em 2011, em São Paulo, aos 102 anos.

No mesmo ano, a historiadora Mônica Schpun publicou, pela Editora Record, o livro “Justa: Aracy de Carvalho e o resgate dos judeus trocando a Alemanha nazista pelo Brasil”. Em 2014, foi a vez do ator e diretor Caco Ciocler lançar o documentário “Esse Viver Ninguém me Tira”, relatando a saga anônima de Aracy.

Diante de uma história tão desafiadora e de uma biografia tão respeitável, há que se perguntar: por que uma mulher, morando num país estrangeiro em meados do século passado, às vésperas de uma guerra, resolve desobedecer as normas de seu país e desafiar as garras cruéis do nazismo, arriscando a própria vida, a de seu filho e de seu companheiro? A própria Aracy teve oportunidade de responder: “Porque era justo”.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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“Joãzinho” e “Ara” (Foto: Álbum de família)