Verbo de ligação


Divina Elizeth

Para Manoel e Adriana, que viveram isto comigo

Das janelas mais queridas da minha saudade, acena-me esta lembrança: a morada da minha infância nas manhãs de domingo.

O sol muitas vezes vinha agraciar a cidade curitibana e então todas as vistas eram abertas, assim que as cortinas esvoaçavam ao leve rumor do vento.

Papai enfim estava em casa e a gente ficava tão contente! Ele descansava da semana cheia, mais ainda da vida de labuta desde cedo. E, satisfeito, saboreava suas conquistas.

Ao toca-discos frequentemente levava o LP daquela que ia se tornando, por influência dele e por seu próprio brilho, uma gema preciosa em meu coração: Elizeth Cardoso. Eu me comprazia em deixar seu timbre grave de seda brilhante deslizar pelos meus ouvidos. Que elegância! Que afinação! Que repertório!

Até hoje gosto de ouvir. Quando cuido que não, lá vem uma lágrima me surpreender, a me lembrar daqueles dias. E talvez a minha canção preferida em sua voz seja “Sei lá, Mangueira”, samba antológico de Hermínio Bello de Carvalho e Paulinho da Viola – que dupla!

O arranjo é um deslumbre, a letra é só primor: “Vista assim do alto, mais parece um céu no chão! Sei lá, em Mangueira a poesia, feito o mar, se alastrou. E a beleza do lugar, pra se entender, tem que se achar que a vida não é só isso que se vê. É um pouco mais, que os olhos não conseguem perceber, e as mãos não ousam tocar, e os pés recusam pisar. Sei lá, não sei; não sei se toda beleza de que lhes falo sai tão somente do meu coração. Em Mangueira a poesia, num sobe e desce constante, anda descalça ensinando um modo novo da gente viver. De sonhar, de pensar e sofrer… Sei lá, não sei; a Mangueira é tão grande, que nem cabe explicação”.

Revisitando a composição, gravada em 1969 com o Zimbo Trio, fico aqui a imaginar, quem sabe meu pai estivesse constatando que “a vida é um pouco mais” quando, entre uma baforada e outra em seu cachimbo, sorrindo reverenciava a grande dama como se ela estivesse em nossa sala:

– Divina, maravilhosa!

Onides Bonaccorsi Queiroz

Para quem deseja ouvir: Sei lá, Mangueira

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Elizeth Cardoso (1920-1990)



Os maiores erros que cometi
07/02/2017, 23:04
Filed under: Prosa

A esta altura, percebo. Os maiores erros que cometi tiveram a mesma raiz: não ouvi meu coração. Ele estava lá, sensível, atento, disponível, pulsando no peito, saltando de alegria ou contraindo-se de aflição para me mostrar o caminho: “Por aqui sim”, “por ali não!”.

E eu o desprezei. Não confiei nas suas claras instruções. Avancei por cima com indiferença, como se fosse nada, ou com brutalidade, como se fosse um intruso em minha vida. Tão sofisticado e expressivo, ele me incomodava, e, se pudesse, eu o teria suprimido.

Ah, como eu o traí! Como o maltratei! Eu queria ser inatingível, superior, e abraçava a racionalidade, pensando que me poupava sofrimento. Mas só fazia me entranhar na cerração!

Já na trilha das lágrimas é que fui me lembrar do cordial companheiro. Do quanto era puro, inocente e amoroso. Só então entendi que ele sempre quis me ajudar, e, por medo, recusei.

Se eu tivesse escutado o meu coração, teria sido muito mais feliz, certamente. Mas a verdade é que eu não estava preparada para ser feliz. Agora, como criança que aprende, vou ficando ciente da sua sabedoria, lealdade e ternura. Ouço os seus conselhos e me empenho em conquistar o que pode ser meu.

E ainda clamo a esse doce amigo: me perdoa, meu amor. E toma conta de mim.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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(Ilustração: internet)



Elogio aos maduros
28/01/2017, 20:05
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Os muito verdes que me perdoem. Mas homem maduro é fundamental.

Para ser vivido, não basta ter idade. É necessária uma percepção mais sofisticada da vida, o que só decorre da experiência.

Que belas histórias de sabedoria podem narrar cabelos grisalhos. Quanta tarimba tantas vezes se assenta entre as marcas físicas da existência. E que insuperável é o humor dos que já aprenderam a ser responsáveis, mas também sabem que nada é tão sério assim.

Evidentemente, entre os que caminharam mais, há os tolos, que os obtusos também envelhecem. Esses são uma lástima, apenas se embrenham em futilidades intermináveis. E há os secos. Que se repetem em mesquinhez e não fazem mais do que dilapidar o estoque dos seus dias.

Pesadelo de muitos, o grande trunfo da fase madura é exatamente ter mais próxima a perspectiva da morte. Excelente conselheira, essa baliza recomenda evitar frivolidades e investimentos que não tragam gratificações significativas. Se o tempo é precioso, a vida é urgente.

Por isso, no homem maduro a vaidade de macho falastrão vai sendo vencida. Compreendida a pertinência de ser mais humilde, já que nossas horas são contadas, esse indivíduo naturalmente passa a trajar a dignidade. E em si despertam, cada vez mais intensas, as joias da solidariedade, do respeito e do companheirismo.

Seus vínculos afetivos se aprofundam, porque ele já verificou que, de tudo, o que resta é a qualidade do encontro. Assim, mesmo com o declínio da vitalidade, o saldo de satisfação é positivo.

No homem maduro, a alma está presente. E, para além do corpo, a alma erotiza sobretudo em direção ao que não se pode ver, mas se pode sentir.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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Lama Padma Samten (Foto: internet)

 



Há 35 anos sem Elis
24/01/2017, 23:00
Filed under: Data, Prosa

Tu sabias que carregavas uma gema preciosa. Essa voz que não me atrevo a adjetivar.

Onde aprendeste esse saber tão vasto que encantava nossos ouvidos e desconcertava os músicos mais experientes? Ninguém carrega tão raro talento por acaso.

O problema é que gente não vem com manual de instruções e ajustar tanta grandeza num corpo humano não é tarefa fácil. Às vezes, tão árdua que não dá tempo.

Mas só tu conheceste a dor e a glória de ser Elis Regina.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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Elis Regina, morta em janeiro de 1982 (Foto: internet)

 



Por que a cotia ficou sem rabo

Fazer favor é bom? A maioria das pessoas que conheço responderia que sim, aposto. E também eu cultivei essa crença durante anos.

Mas, prestando bem atenção às práticas, reações e motivações humanas, mudei de ideia. De uns tempos pra cá, a minha resposta à questão é: depende. Nem sempre vale a pena ajudar. Porque o préstimo precisa ocasionar efeitos salutares para quem dá e quem recebe, o que nem sempre ocorre.

Para avaliar a adequação, valho-me de alguns critérios, garimpados entre as experiências que vivi. O primeiro é de só fazer o obséquio que me for diretamente solicitado. Por algumas vezes, atendi à necessidade ou suposta necessidade de alguém, que tratou o indulto com descaso, ou até indelicadeza, chegando a me dizer: “Não te pedi nada”.

Restou-me reconhecer que eu havia agido tolamente. E aprendi que quando concedo o que possuo sem que me tenha sido convocado, desmereço esse bem, seja abstrato ou material. Porque, com tal atitude, impeço o outro de perceber tanto a sua carência quanto o valor do trunfo que carrego e que poderia eventualmente compartilhar.

Assim, a pretensão verbalizada é a admissão da existência da demanda e a prova de encaminhamento a destinatário específico.

Segundo quesito: só faço o que posso fazer. Já vi gente cedendo aquilo de que tem necessidade e até emprestando dinheiro que não possui para socorrer terceiros. Cada caso é um caso e emergências existem, mas um procedimento dessa espécie exige reflexão e parcimônia.

Já a terceira condição para viabilizar o auxílio é verificar se o candidato ao favorecimento o merece. Sua conduta tem afinidade com a benesse em questão? Por exemplo: um amigo pagava curso de inglês para a sobrinha, que faltava às aulas e tirava notas baixas. Ele a advertiu, ela fez pouco caso. A solução foi simples: ele cortou o benefício e deixou de se sentir lesado.

Por sua vez, outro amigo é refém de um parasita. Há décadas faz negócios com um companheiro de infância que vive com problemas financeiros. Ao ser brindado com cada chance, o tal sujeito sempre se aproveita da situação e prejudica o velho parceiro de alguma forma. Que se deixa cair na armadilha de novo e de novo. Talvez porque esteja apegado à sua máscara de generosidade. Talvez porque, infantilizado, não consiga impor limites a si próprio nem aos outros. Ainda desconhece o significado profundo de uma palavra fundamental: “não”. E, enquanto tolera o predador, vai pagando o preço. Não por acaso, “cotia ficou sem rabo de tanto fazer favor”, avisa a sabedoria popular.

Aí fica fácil reparar também que aquele que ajuda compulsivamente não recebe agradecimento. Ouve é reclamação quando porventura falta com o que nem é sua incumbência.

A verdade é que apoiar um comportamento negligente ou nocivo, longe de ajudar, incentiva um explorador a se manter na ilusão de que está se conduzindo com integridade e que os seus atos não estorvam ninguém.

É preciso, então, que o benfeitor em potencial se ausente dessa cena. Primeiro para evitar problemas a si próprio. Depois, para que o outro possa perceber o que perdeu, ou o que deixou de ganhar, e por quê. Apenas essa retirada é que propicia a abertura do espaço para a reflexão na vida do interlocutor. O que significa promover a dignidade de ambos.

Mas, havendo pertinência, oferecer ajuda é uma das maiores gratificações de que um ser humano pode provar. Quem favorece com responsabilidade, dá e recebe.

Onides Bonaccorsi Queiroz

cotia



Con amore
02/01/2017, 21:29
Filed under: Prosa | Tags:

O ano começou um tanto triste para nossa família. Aos quinze minutos do primeiro dia, deixou-nos Pasquale Bonaccorsi, o querido tio Lino.

A razão desta manifestação não é apenas marcar a despedida dessa pessoa, mas narrar brevemente a história de um homem absolutamente comum, e ainda assim extraordinário. Pelo seu caráter, sua afetividade e responsabilidade, demonstrados até o fim de seus dias. Amor, trabalho e dignidade foram marcas da sua vida.

Italiano, migrou para o Brasil na década de 1950. Na viagem de navio, tornou-se amigo de um senhor fundamental em sua trajetória: o futuro sogro. Do outro lado do mar, no Rio de Janeiro, encontraria uma moça linda, por quem se encantou: Angela Michela Urago.

Aliás, sua atitude de respeito às mulheres de sua vida sempre foi notável, especialmente nestes tempos indelicados em que vivemos. Tio Lino foi afetuosamente reverente à mãe, eterno apaixonado pela esposa, cheio de ternura para com a filha, irmãs, netas e sobrinhas. Mas também aos sobrinhos nunca dispensou o beijo no rosto, mesmo depois de adultos.

Profissionalmente, desenvolveu a vida toda o ofício de torneiro mecânico, aprendido em sua pátria. Dedicado e meticuloso como era, posso apostar que era dos bons. Com muito esforço e a ajuda preciosa de sua Angela, com quem atravessou momentos difíceis que os imigrantes bem conhecem, ele ganhou o pão, manteve sua família, educou seus filhos e até construiu a casa dos seus sonhos, com o perfeccionismo e detalhes que sua mente era capaz de engendrar. Ali recebia família e amigos cheio de alegria, humor, carinho e satisfação: “Con amore”, dizia.

Há coisa de dois meses, aos 86 anos, foi internado, com a saúde bastante abalada, na UTI de um hospital em Curitiba. Imagino que, fragilizado e no isolamento, entrou em reflexão profunda sobre sua vida, com seus humanos erros e acertos. Suponho que teve a chance de considerar a proximidade de sua despedida e de preparar-se para recebê-la.

Ainda, transferido para o quarto, ganhou a oportunidade de passar mais um Natal junto à família. Presente da existência.

Sua biografia, tão singela e brilhante, me emociona. Só posso agradecer por nosso parentesco e seu exemplo. E choro mesmo, porque um homem de bem merece nossas lágrimas.

Mas, para encerrar esta homenagem, escolho a lembrança de um momento muito feliz que passamos juntos. O dia em que levei meu filho para que ele e a tia o conhecessem. Receberam-no como um netinho e, à mesa, o tio fez questão de lhe dar um pouco de vinho, vivificando nossas raízes italianas. Deixei de bom grado.

Por tudo isso, um brinde ao tio Lino!

Onides Bonaccorsi Queiroz

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Foto: Arquivo pessoal



Carta ao Menino Jesus
22/12/2016, 15:02
Filed under: Prosa | Tags:

Ó querido Menino Jesus! Sabes que te amo e sabes que é deste jeito falível, humano, de quem está balbuciando o amor. Mas também hás de saber que é sincero.

Que eu te sinto verdadeiro. Sinto a tua bondade. E quero aprendê-la porque é o que experimentei de mais puro e precioso neste mundo.

Ah, Menino Jesus, quando comecei a entender que existes de verdade, fiquei tão contente! E quisera distribuir entre outros esse encantamento. Mas a porta é tão estreita, não é, Menino?

Ainda assim peço por todos nós: faz acordar o amor no coração da humanidade!

E, mesmo que tudo fique escuro, não deixes que a esperança me abandone. Permite que esta criança que ainda vive dentro de mim e que agora fala contigo nunca se cale em minha consciência.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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(Imagem: desenho antroposófico, autor não identificado)