Verbo de ligação


O bem da simplicidade
23/08/2019, 20:17
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O que é simples se afigura, aos ingênuos, desprovido de atrativos, banal ou desprezível. Equívoco: o simples, por óbvio, é a instância perfeita para abrigar realidades inspiradoras.

Despretensioso num mundo infestado de vaidades flamejantes, o simples instiga os mais argutos: “o que haverá de tão ajustado ali, que não tem a necessidade de se colocar em evidência?”

É que o simples não duvida do seu valor, portanto não precisa ficar se afirmando. Não está interessado em parecer, pois não se sustenta da atenção alheia. O simples é. E tem sua discreta força concentrada nisso.

Então parece que o simples nada contra a corrente do mundo. Quando, na verdade, é a civilização que há muito anda na contramão do simples, anterior e superior a tudo.

A natureza é um exemplo: composta de sistemas altamente complexos, resulta em milagres visíveis e cotidianos. Não por acaso, um dos sinônimos de “simples” é “natural”.

Por afinidade, o simples acolhe os que já estão à vontade dentro de si próprios. O simples aproxima os humanos: não viemos todos do mesmo barro? O simples desmascara a vaidade: ao barro voltaremos.

O simples tem os pés no chão, custa pouco e alimenta muito. O simples sorri, o simples perdoa, o simples brinca, o simples quer bem, o simples compartilha, o simples simplifica.

Que não seja confundido, entretanto, com o simplório, que é imaturo e tosco. Enquanto que o simples, para ser compreendido, exige um grau de refinamento. Que não é intelectual, mas moral.

Para alcançar o simples, não há o que fazer. Há o que desfazer. Livrar-se de tanto querer, de querer agora e querer do jeito que quer. De controlar.

Posição laboriosa, o simples alcançou a estatura de deixar fluir. Está entregue à vida verdadeira.

De modo que o simples demanda um olhar limpo. E um coração muitas vezes desiludido até compreender que o que vale a pena na vida é de fato precioso, mas bem simples.

Onides Bonaccorsi Queiroz



Aquela mão que segurava a minha
09/08/2019, 21:07
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Meu pai partiu cedo.

Para compensar a lacuna da convivência e integrá-lo ao meu entendimento, busco saber detalhes da sua história, imaginar suas motivações, adivinhar-lhe os temores, compreender o comportamento. E perscrutar a luz e a sombra da sua humana alma.

Atenta à jornada de viver, quanto mais experimento, mais o trago para perto de mim; quanto mais me conheço, mais o assimilo. Vestida da aceitação de tudo o que se passou, quanto mais o acolho, mais me sinto plena. E quanto mais me completo, mais o amo.

Naturalmente, sobrevém-me gratidão de ser filha sua. E a memória se aviva.

Pequenina, para mim era ele o homem mais forte do mundo. O mais inteligente. E mais bonito: me fascinava seu rosto, seus olhos, seu nariz, sua boca, seus cabelos, que ainda sinto entre meus dedos… Embevecida de amor, na ausência dele mergulhava o rosto no seu travesseiro para sorver-lhe o cheiro.

Lembro-me especialmente da sensação de caminharmos lado a lado, com sua mão envolvendo a minha, miúda e delicada. Era um toque firme, protetor, carinhoso. Eu confiava naquele ser absolutamente, sentia que me defenderia de qualquer perigo.

Também seu incentivo era sincero e autorizador, de uma qualidade que tornaria o mundo melhor se todo pai tivesse condições de apresentar aos filhos. Que quando eu expressava medo de um exame da escola, ele afirmava, certeiro: “Estude, que você vai se sair bem”. E eu acreditava nele.

Ainda acredito. Diante das provas da vida, sei o que ele me recomendaria.

– Vá.

Munida do que me ensinou em palavras e atitudes, depreendo: “Vá porque estou torcendo por você. Vá porque você é capaz. Vá porque lhe dei preparo para andar sobre suas pernas. Vá e explore o que eu não tive oportunidade. Vá porque sua missão filial é prosseguir. Vá e não pise em ninguém. Vá, tão longe quanto possa, para o seu bem e o de todos, e deixe aberto o caminho para os que virão depois.”

Assim ressoa a voz de meu pai dentro de mim. E ainda sinto a sua mão segurando a minha.

Onides Bonaccorsi Queiroz

(Foto: internet)


Artesania da emoção
26/07/2019, 16:31
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Se queres te erguer além do sofrimento e te dispor à bem-aventurança, toma a tua dor nas mãos e estuda de que tecido é feita. Estende a peça, observa o todo, processa as tuas impressões. Examina o avesso, confere as costuras, compreende os arremates, descobre remendos e verifica os fios soltos.

Expande a tua investigação: de retalho em retalho, reconstitui a tua história de pesar. Pesquisa os pontos, presume o traçado dos alinhavos, analisa os nós e identifica os padrões da linha narrativa. Repara nas cores também.

Não desperdices as oportunidades que os revezes trazem te vitimizando pelos ferimentos sofridos. Resiste à tentação de culpar o de fora. Em que depositavas a atenção quando a agulha espetou teu dedo?

Trabalho em punho, tateia o alto relevo dos ressentimentos, a trama dos enganos, as falhas das ausências, os vincos dos medos e lhes indaga o que têm para te contar. Recobra a memória da textura.

Ainda, tão importante quanto realizar a tua parte é aprender a soltar o lavrado e deixar que o fazer se apresente. Ele não é todo teu e também se converte belo por ser livre.

De quando em quando, descansa. Entrega-te ao desfrute, recuperando o ânimo para recomeçar.

A cada jornada, empenha-te em conhecer e dominar os instrumentos de ofício. São inúmeros e te auxiliam a enxergar os detalhes, cingir as semelhanças, arranjar as diferenças, aparar o desânimo, restaurar a esperança, enfim, ajudam a te apropriar com esmero da tarefa que te cabe.

Porque a omissão te poupa de enfrentar o conflito, tão intimidador, mas também te acarreta um prejuízo considerável: o impedimento de amadurecer e de conquistar competência e direitos.

A feitura é muitas vezes árdua sim, mas dela advêm alegrias inusitadas: o orgulho sem vaidade de ser coautor da composição pessoal. A tranquilidade de contar com o próprio apoio. A gratidão pela chance de se aprimorar. O poder de realizar sonhos.

Qualifica teu artífice interno e torna a tua vida uma obra de valor.

Onides Bonaccorsi Queiroz

(Foto: internet)


Nos caminhos de Francesco

Depois de tudo sonhado, planejado e mapeado, eu cumpria a agenda com dedicação e prazer, até que, inesperadamente, em certo momento me senti… farta.

Descobri-me inquieta, rodeada por aquele mundo de gente, o movimento compulsivo dos turistas, o vozerio infinito, a babel de idiomas e o consumo insaciável de informação.

Intuitivamente, caminhei em direção oposta ao burburinho, ao longo do muro de pedra lateral à basílica. Então um portão, uma fenda: talvez uma rota de fuga. Numa placa inscrito “Bosco di San Francesco”. De imediato, “sim!”, gritou entusiasmada minha criança interna, empurrando-me para dentro.

E foi pisar na alameda selvagem para começar a perceber o bálsamo natural me aliviar o cansaço da mente, trazendo a sensação confortante das escolhas acertadas.

A profusão de árvores e relva e flores silvestres permeadas pelo aroma verde me fez imergir na calmaria. E a rica harmonia do canto dos pássaros parecia brincar com os meus sentidos. E havia zunidos e cricrilares e o sussurro do vento, num arranjo tão formoso e bem-acabado que me sentei num dos rústicos bancos de madeira do caminho, para melhor me entregar à apreciação. Deleite puro. A alma silenciosa, grata.

A sabedoria me asseverava, naquela oportunidade ímpar, que o grande templo do mundo é a natureza. E que momentos dessa qualidade não se programam, acontecem – se propiciamos, se permitimos. Em sua rica capacidade didática, a existência escolhera justo o solo de Francisco, o de Assis, aquele que, ao se desconectar da balbúrdia urbana, conheceu tal comunhão com o ambiente que logrou compreender a língua dos pássaros. Erudição muita.

Observando, caminhando, refletindo, relaxando, descobrindo fluxos d’água e vales de luz, permaneci naquele recanto por horas, jornada em que a vida transbordou para mim.

Percorrendo a trilha, devo ter cruzado com uma dezena de pessoas. Quase todas me olharam nos olhos, e muitas me saudaram, outras sorriram, como se nos reconhecêssemos. É que, ao escolhermos adentrar aquela porta, algo nos reunia: o desejo de contatar o indizível.

Onides Bonaccorsi Queiroz

Bosque de São Francisco, Assis, Itália (Foto: Onides Queiroz)


Peregrino eu – sobre a obra “O terapeuta” de René Magritte
11/03/2019, 20:28
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Peregrino da vida,

quem sou eu?

Qual é a minha face,

a minha verdadeira face?

Vivo a ousadia de buscá-la,

sob os mantos de mim?

Trago naturalidade ao expô-la?

Peregrino eu,

o que carrego, na marcha dos dias?

O que abandono?

O que me apoia, na jornada?

E o que me protege?

Para onde volto minha atenção?

A que encantos dou as costas?

E, destas prisões internas que construí,

o que logrou se libertar?

E o que ainda é refém,

embora tenha portas abertas diante de si?

Peregrino da vida,

experimento esta aventura,

de dentro pra fora

e de fora pra dentro,

pois o caminho instrui meu coração

e o coração me indica o caminho.

Onides Bonaccorsi Queiroz



Um recado para Teresa
01/02/2019, 22:22
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A quem lhe pedisse conselhos, ela recomendava: “Não devemos permitir que alguém saia de nossa presença sem se sentir melhor e mais feliz”.

E, em seus gestos, oferecia sustentação às suas palavras.

Nas visitas constantes aos fragilizados pela miséria ou pela enfermidade, frequentemente por ambas, era esse o bem que se esforçava por obter.

Certa vez, em seu cotidiano e humanitário sacerdócio, dirigiu-se à casa de um velho pobre e doente, que vivia só.

Conversou com ele e, com o coração, escutou-lhe as dores, mais que físicas. E sua presença afetuosa o confortou.

Constatando, então, o abandono a que estava entregue a pequena morada, pediu ao homem que a deixasse limpá-la e organizá-la.

O ancião recusou. Quem era ele para ter sua casa faxinada por Madre Teresa de Calcutá?

Mas ela insistiu. E ele cedeu. E ela se lançou a tarefa.

Em dado momento, a madre encontrou uma lamparina velha, suja e enferrujada, e lhe perguntou por que a peça não era utilizada. O homem disse que ninguém o visitava e que, por isso, ele não precisava de luz em sua casa.

Teresa limpou o objeto o melhor que pôde e, assim que dedicou os últimos cuidados da visita ao enfermo, antes de sair deixou a lamparina acesa.

Anos depois, o homem lhe enviou um recado: “Contem à minha amiga que a luz que ela acendeu em minha vida continua brilhando!”

Onides Bonaccorsi Queiroz

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“O importante não é o que se dá, mas o amor com que se dá.” Madre Teresa de Calcutá


A bandeira da paz
21/09/2018, 21:47
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O germe da violência desponta no interior da gente. A destemperar corações distraídos ou anestesiados.

Surge quando permitimos que o medo seja maior do que o amor.

Quando consideramos razoável a ideia de ter inimigos e empregamos nosso tempo e vitalidade em combatê-los.

Quando colocamos nossos desejos sempre em primeiro lugar, ignorando as emergências e necessidades dos demais.

Quando deixamos de confiar em nossa capacidade de resolver os problemas pacificamente e fazemos uso de agressões morais e físicas, admitindo que ferir alguém possa ser uma medida razoável na solução de conflitos.

Quando não respeitamos formas de ser diferentes da nossa, aprovando a circunstância de que outros seres humanos sejam submetidos a hostilidades.

Quando respondemos à violência com mais violência, sem assumir que estamos perpetuando esse terrível círculo vicioso.

Quando negligenciamos nossa responsabilidade de cidadãos para dar crédito às vozes equivocadas do autoritarismo, sempre indicativas de fragilidade moral e cognitiva.

Quando, desmemoriados, esquecemos que as guerras, civis ou militares, apenas trouxeram mais sofrimento à humanidade, especialmente aos mais frágeis e inocentes.

Quando acompanhamos o comportamento ruidoso da multidão, sem nos deter para escutar o que o próprio discernimento nos aconselha a fazer.

Quando não avaliamos o possível potencial ofensivo de nossas palavras antes de pronunciá-las e findamos por criar indisposições contra nós.

Quando nos deixamos dominar pelo orgulho e pelo egoísmo, desconhecendo o poder transformador do diálogo e da cooperação.

Quando não enxergamos, além das aparentes individualidades, a unidade em que estamos todos reunidos. A nós, apenas essa consciência acudirá, guarnecida da amorosidade e da coragem para sustentar, em palavras e atitudes, a bandeira da paz.

Onides Bonaccorsi Queiroz

pacifismo

Washington, 21 de outubro de 1967: a estudante Jan Rose Kasmir, de 17 anos, participava, junto a 100 mil manifestantes, de um protesto pacífico contra o envolvimento dos EUA na Guerra do Vietnã (Foto: Marc Riboud)